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Ricardo Andrade – Comissário de Bordo
Ricardo Andrade
Comissário de Bordo

Opinião de Ricardo Andrade

O nome da coisa

3 de maio de 2020
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Deixe-me começar por partilhar convosco que, cá por casa, quase inconscientemente, assimilámos que o conceito de “nova-normalidade” seria algo com que teríamos que conviver. Seria algo que teríamos de abraçar ( com o distanciamento social necessário, claro!). Seria algo que faria parte do nosso dia-a-dia e que não seria possível de afastar ou de esconder. Esta noção de “nova-normalidade” ou de “normalidade possível” dava, como se costuma dizer, um livro e por isso mesmo se tornou quase obrigatório que, em lares por esse mundo fora, se começasse a notar sem se notar, um fenómeno de “nomeação”.

Não de uma nomeação política ou do elencar de características específicas do “dito cujo” mas do atribuir um nome a algo que passou a fazer parte das nossas vidas, do nosso dia-a-dia e, porque não dizê-lo, das nossas casas. Se atentarmos bem, este novo protagonista com que todos convivemos, é semelhante mas diferente.

É o mesmo que a todos afecta mas nem sempre é igual Não falo das suas características epidemológicas mas sim da forma como o acolhemos nas horas dos nossos dias e como precisámos de reagir a essa evidência da sua presença. Cá por casa começamos a trata-lo de “o vírus” quase como se de um novo membro da família se tratasse, Com alguma pompa e circunstância mas com uma familiaridade relativa que permitisse ser reproduzido sem erros por parte dos pequenotes ( para quem Corona Vírus nem sempre consegue ser dito sem ocasionar erros de expressão ).

Com uma certa normalidade possível mas sem deixar de ir ao âmago da questão nem maltratar este novo inquilino do nosso planeta terra. Um pouco por toda a parte assistimos a essa nomeação. Para uns é o “COVID-19” usando o seu título, para outros apenas “COVID” como se o conhecêssemos tão bem que a informalidade se tornasse obrigatória, para muitos “o bicho” como se a um papão nos referíssemos ou para outros tantos lares é “colona vírus”, “clona” e tantos tantos outros nomes com histórias e origens diversas.

O facto é que passámos de não nos apercebermos da sua existência, para o termos medo dele ( que julgo que não desapareceu nem é um sentimento que se irá tão cedo ) mas também para termos que o acolher como uma realidade a quem não merece a pena tratar por “aquele cujo nome não se pode dizer” mas sim arranjarmos, muitas vezes, “petit-noms” e formas de tratamento que nos façam sentir confortáveis e que demonstrem o modo como o encaramos.

Todo este processo é, na minha opinião, revelador do que nos espera. De todo um processo que não se encerra num nome ou num fenómeno de atribuição de epíteto ou cognome. De todo um caminho que ainda iremos percorrer com enormes incertezas e com a necessidade urgente de permanentes adaptações que nos façam atingir patamares de conforto onde, por um lado, não menosprezemos o que se passa mas onde, por outro, tenhamos que não nos deixar consumir por tudo isto de maneira a que as nossas vidas não se cinjam a uma sobrevivência e possam ser vividas em pleno valorizando os aspectos que verdadeira e claramente contam.

Porquê? Porque, permitam-me a nota, não podemos deixar de viver, não podemos deixar de sermos nós mesmos, não podemos anular-nos em favor de uma epidemia ou pandemia desta vida. Porque temos que viver dia a dia dando valor ao que efectivamente importa. Porque temos que mostrar que, como cantava Cazuza, “ O tempo não pára” e que como versava na música de Valete “ O mundo muda a cada gesto teu”!

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