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João Alexandre – Músico e Autor
João Alexandre
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Bill Callahan - Pastor em colete de pele de carneiro

9 de julho de 2019
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Bill Callahan é um cantor e compositor americano natural de Silver Spring no estado americano de Maryland, onde nasceu em 1966.

O seu trabalho enquanto músico confunde-se numa primeira fase com os Smog, banda precursora do lo-fi alternativo com edições desde 1990, inicialmente caracterizada realmente por um som pobre, guitarras nem sempre afinadas e muito ruído mas onde os textos revelam desde logo um talento superior para a escrita de canções e que ao longo dos cerca de 15 anos, 11 discos editados até 2005, se vai polindo, atingindo um ponto alto com o álbum “Red Apple Falls” em 1997, colado a um estilo ainda alternativo mas muito mais country e folk, transportado posteriormente para a sua carreira a título individual.

Bill Callahan inicia a sua carreira a solo em 2007 com a edição do álbum “Woke on a whaleheart”, um disco folk mas com intromissões no R&B e na soul.

O músico, foi considerado pela crítica um misantropo anti-social, até misógino, pelas letras cruas, a explorar o pior da humanidade, o que sucedeu com os lançamentos de “Sometimes i wish we were an eagle” de 2009, “Apocalypse” de 2011 e “Dream River”, o último álbum de 2013, todos eles no entanto sempre bem classificados e referenciados pela sua imperturbável voz de barítono, grave, cheia e possante, ao jeito de Kurt Wagner dos Lambchop.

6 anos depois, um longo hiato de tempo sem discos novos mas recheado de episódios marcantes na vida de Callahan, surge “Shepherd in a Sheepskin Vest”.

Lançado no passado mês de junho este disco é, todo ele, um apelo e um elogio à família, à felicidade e serenidade da vida mais comum e mundana e onde o ser estranho e solitário dá lugar ao homem social, afável, simpático e disponível para viver os prazeres de uma vida “normal” sem grandes alaridos.

Três acontecimentos levam a esta mudança de Bill Callahan, o casamento e vida numa pacata quinta em Austin em 2014, ter sido pai em 2015 e a morte da mãe em 2018.

Callahan não o faz por menos, “Shepherd in a Sheepskin Vest” é um disco duplo com 20 canções de guitarra, voz e ocasionais acompanhamentos de contra-baixo, bateria, minimal de escovas, harmónica, flauta e slide guitar.

Influências do blues de John Lee Hooker, de Johnny Cash, Lou Reed e os Velvet Underground, Neil Young e Bob Dylan, são notórias neste cruzamento de country folk intimista. Mas é nos factos que lhe mudam a vida que está o mote principal deste “Shepherd in a Sheepskin Vest”.

Em “What comes after certainty”, Callahan canta sobre um dedilhado de guitarra acústica,

“...I never thought I’ld make it this far

Little old house

recent model car

and I got the woman of my dreams...”

Em “Circles”, uma canção em que descreve a morte recente da mãe, Callahan canta

“...Death is beautifull

we say goodbye to many friends...”,

no seu tom sério de barítono e que nunca cai na lamechice de alguma da pop mais intimista que por aí circula.

O requinte poético de quem muito leu ao longo da vida mantém-se intocável neste disco e Bill Callahan assina todos os temas, com exceção do tradicional americano “Lonesome Valley”, gravado anteriormente por Woody Guthrie e pela Carter Family que segundo o artiste “É uma daquelas canções cantadas por pessoas vividas – uma daquelas canções sobre cada um de nós ter de encontrar o seu caminho:

Durante muito tempo lutamos desenfreadamente pela nossa identidade, queremos que nos levem a sério, queremos ser respeitados; e um dia percebemos que vamos morrer e queremos apenas ser parte da comunidade, seja um homem e uma mulher, um grupo de amigos, um pai e um filho.”

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