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Opinião
Florbela Estevão – Arqueóloga e Museóloga
Florbela Estevão
Arqueóloga e Museóloga

Paisagens e Patrimónios

A Marcha da Fome de maio de 1944

3 de maio de 2020
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Parte I

Nos inícios de maio de 1944 uma marcha, encabeçada por mulheres, chegava aos Paços do Concelho de Loures reivindicando junto do presidente da época, Dário Canas, mais pão! A Marcha da Fome partiu de Sacavém, seguiu até Unhos, Frielas, atravessou a várzea de Loures e dirigiu-se à sede do concelho em protesto contra os racionamentos e o envio de géneros alimentícios para a Alemanha.

Mais de três mil mulheres, homens e crianças, trabalhadores de Sacavém, Camarate, Apelação e Frielas, marcharam até Loures, ludibriando as forças repressivas e utilizando para o feito azinhagas e caminhos secundários. A política de Salazar de apoio a Hitler, nomeadamente através do envio de bens alimentares, teve sérias consequências no mercado nacional, na medida em que a escassez de alimentos levou não só à subida de preços, mas também ao açambarcamento, o que dificultou o acesso da população aos produtos básicos necessários à sua subsistência.

Claro que nos vários movimentos sociais de protesto deste período, o que estava em causa não era obviamente apenas a falta de géneros, mas, em geral, a melhoria das condições de vida dos trabalhadores, as quais, como sabemos, eram muitas vezes degradantes sob o regime autoritário que sofremos.

Assim, a Marcha da Fome de Sacavém, de maio de 1944, insere-se num movimento de contestação social que carateriza a primeira metade dos anos quarenta, onde por todo o país se assistiu a várias greves que provocaram agitação, tanto nos meios operários como rurais.

Apesar destes movimentos terem variado na sua distribuição e incidência, os investigadores distinguem três momentos de maior relevo no âmbito das greves operárias: as greves de outubro/novembro de 1942, as de julho/agosto de 1943 e, por fim, as greves de maio de 1944. O movimento que levou às greves de 8 e 9 de maio de 1944 desenvolveu-se a partir de importantes centros industriais, como Sacavém, Póvoa e Alhandra, para mencionar apenas a zona oriental da grande Lisboa.

No dia 8 de maio, pela manhã, a adesão à greve começou pelas fábricas mais importantes como a Cimento Tejo de Alhandra, a Covina de Santa Iria de Azóia, a Soda Póvoa de Póvoa de Santa Iria, a Fábrica de Loiça de Sacavém.

A adesão dos milhares de trabalhadores destas grandes fábricas provocou também um forte impacto em pequenas oficinas, e até na população mais carecida em geral. Apesar da II Guerra Mundial estar perto do fim, o que significava que na Europa já se desenhava o estertor da malfadada ocupação alemã, em Portugal a situação degradava-se. O racionamento para uns, e a fome para muitos, levaram à eclosão de várias greves como as que se referiram. O despacho do governo salazarista que obrigou à diminuição dos salários só veio agravar a situação precária em que viviam a maioria dos assalariados.

Nestas circunstâncias, os movimentos sociais de confronto contra o regime multiplicaram-se, conseguindo cada vez maior adesão. É neste contexto que o Partido Comunista Português, criado em 1921, se organiza e acaba por ter um papel relevante nestes movimentos.

O jornal Avante foi uma das suas peças-chave, como elo de muitas iniciativas subversivas, porque desde 1941 passou a sair com regularidade. Este jornal clandestino permitirá promover uma forte mobilização popular, para a qual também contribuíram o Jornal A Greve e comunicados vários que difundiam a urgência de manifestação face a uma realidade insustentável.

Será também nesta altura, em 1944, que é criado o Movimento de Unidade Nacional Antifascista, organização clandestina que congrega as principais forças democráticas, e que no ano seguinte daria origem ao Movimento de Unidade Democrática (MUD). Vários investigadores, como Fernando Rosas e Pacheco Pereira, destacam um acontecimento que terá acelerado o processo de contestação, a notícia da destituição do ditador italiano, Mussolini. Embora o regime salazarista tentasse conter a notícia receando o seu efeito catalisador num cenário de efervescência social, a mesma acabou por sair na imprensa precisamente na véspera do dia em que tiveram início as paralisações de maio de 1944.

Já a partir de 1943 o país vivia um período de grande insatisfação social, não só devido à legislação entretanto promulgada sobre o Abono de Família e as horas extraordinárias, mas também porque o acesso aos bens essenciais se revelava cada vez mais difícil e a fome alastrava pelo território nacional.

A revolta estava latente, a agitação crescia principalmente nos locais de abastecimento, onde as filas eram intermináveis e a intervenção da polícia frequente. Os movimentos grevistas agitaram a situação e perturbaram o regime em 1942, 1943 e 1944. As Marchas da Fome multiplicaram-se à medida que os movimentos de contestação se intensificavam e alastravam.

Nas Marchas da Fome, as mulheres assumiram, pela primeira vez no chamado Estado Novo, um papel de protagonistas de eventos públicos de confronto com a ordem vigente, sofrendo também as agressões, detenções e toda a espécie de represálias por parte do regime que haveria de durar até abril de 1974.

O protesto foi dramático para muitas famílias, mas representativo da revolta e da carestia que se fazia sentir naquele tempo, com a agravante dos grevistas, incluindo os cerca de 100 trabalhadores despedidos da Fábrica de Loiça de Sacavém, só poderem ser readmitidos após autorização do regime contra o qual se manifestavam. Continua na próxima edição.

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