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Opinião
Florbela Estevão – Arqueóloga e Museóloga
Florbela Estevão
Arqueóloga e Museóloga

Paisagens e Patrimónios

A Festa e as Festas de Loures 2019

4 de agosto de 2019
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De 25 a 28 de julho deste ano decorreram as Festas de Loures 2019, sob o lema “O Ritmo Que Faz a Diferença”, assinalando os 133 anos do concelho. Incluíram muitas manifestações agregadoras de público, como música, gastronomia, exposições, desporto, teatro e concertos, estes últimos como principal atração.

A festa é um elemento fundamental estruturante de qualquer sociedade, de qualquer agrupamento humano mesmo, desde o mais simples ao mais complexo. Tradicionalmente sazonal, pautando as várias épocas do ano, deriva da festa religiosa, e conserva frequentemente, mesmo nos acontecimentos mais laicos, mais profanos, um elemento religioso, de culto, de celebração de qualquer coisa. A festa é um excesso. Um excesso no qual se investe muita energia e recursos, e para o qual as coletividades se preparam muito antes dela ocorrer. É preciso que ela marque uma rutura no dia a dia, um corte no tempo, uma certa alteração ou mesmo inversão das regras moderadas pelas quais se pauta a vida coletiva, e represente, ou implique, uma excitação particular dos espaços e das pessoas. A festa é tão antiga como a própria humanidade, mas foi assumindo ao longo do tempo formas muito diversificadas, como é evidente e de esperar. Assim, sobre este tema, caro(a) leitor(a), existem bibliotecas inteiras: a vida humana seria impossível sem esse intervalo regular que é a festa, e, evidentemente, o seu estudo despertou a curiosidade de infinitos autores.

Para as várias entidades locais, a festa, que pode ir do tom mais sofisticado, dirigido a um público restrito, ao mais elementar e comum, destinado a toda a gente, e inclusivamente gratuito, é um elemento identitário fundamental, destinando-se a “colocá-la no mapa”: a festa é o que faz existir uma localidade (grande ou pequena) para além da vivência e dos serviços e atividades rotineiras e necessárias. A festa é o que distingue. Não é necessária para nada, e, contudo, é a atividade mais fundamental de todas, para construir o laço social, e, portanto, solidificar a própria comunidade a quem se dirige. E, como cada localidade quer distinguir-se a assinalar-se junto das demais, existir nos media, atrair atenção e público que frua e seja consumidor de tudo o que a festa oferece, é compreensível que os responsáveis da festa se empenhem em surpreender pela positiva, procurando de cada vez trazer ao local figuras conhecidas, ou eventos originais, que atraiam a atenção e criem uma tradição local.

A festa está, pois, ligada a uma imagem, a uma marca, a algo de identitário. Só que a sociedade de consumo, a dita “sociedade de lazer” (haveria muito a dizer sobre o que é este lazer...) marca uma diferença muito grande em relação às antigas festas sazonais, que eram normalmente uma forma de assinalar um momento de transição das estações do ano, com raízes religiosas muito antigas. Hoje pode dizer-se que a festa se instalou como uma forma de evasão quase constante, nomeadamente nas camadas mais jovens, ligadas a um modo de vivência hedonista, que acompanha uma maneira de estar mais leve, ou aparentemente mais leve, e serve para atenuar, no dia a dia, ou com frequência, as inquietações quanto ao futuro, num mundo cada vez mais imprevisível em todos os aspetos. Já há muitos anos que começou aquele slogan das “férias repartidas”, como outro também de “faça férias cá dentro”. Ora, festa e férias estão ligadas, obviamente, pois ambas são momentos de evasão de um ambiente cuja pressão simbólica é grande, e onde o desmembramento das tradicionais formas estáveis de vida (afetivas, de emprego permanente, de objetivo ou programa bem definido e duradouro, etc.) é notório para qualquer um(a), sobretudo para os que ainda viveram antes da chamada sociedade de consumo de massas, que é a nossa. Essa necessidade de evasão, que a festa leva ao extremo, coletivamente, nota-se todos os dias ao nível individual: basta frequentar os transportes públicos para se ver as pessoas absolutamente concentradas no chamado telemóvel, que há muito deixou de ser um mero telefone, para se transformar num objeto identitário onde “está” toda a vida do utente. Com frequência usando “phones”, as pessoas tornam-se particularmente “autistas”, ou seja, cada uma ouvindo as músicas que mais lhe agradam, e, portanto, indiferentes aos outros e à vida ambiental incómoda e stressante. A música está hoje presente em toda a parte: ora, a música, dantes, como qualquer grande ruído espetacular (bombos, foguetes, fogo de artifício, tocar de sinos, marchas militares ou procissões religiosas com seu som peculiar, etc., etc.) era algo ligado à festa ou ao acontecimento excecional, quer celebrando-o, quer chamando as pessoas para a ele ocorrerem. Hoje, isso generalizou-se e tornou-se quotidiano. Há sempre alguma festa a acontecer em qualquer lugar, por qualquer motivo real ou inventado, para celebrar alguma coisa ou – numa extensão do próprio conceito de festa - fazer o luto de qualquer acontecimento nefasto.

Assim, pois, na brincadeira, na folia e no êxtase mesmo, nada há de mais sério e de mais fundamental do que a festa para criar comunidade. E, claro, as festas de Loures, concelho multicultural e que se deseja cada vez mais intercultural, não são exceção.

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