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Rui Pinheiro – Sociólogo
Rui Pinheiro
Sociólogo

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Francamente!...

6 de agosto de 2016
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Francamente!...

Já por duas ou três vezes, em círculo mais privado, ou no espaço mediático, ouvi responsável político municipal, talvez para valorizar a chamada “Arte Pública”, a estabelecer comparações, difíceis de perceber, entre aquela manifestação artística e Museus.

Confesso que a primeira vez ainda me pareceu uma espécie de lapsus linguae, eventualmente um lapsus calami, não escrito, mas dito. Em suma, um acto falhado. Contudo, a repetição da fórmula, aparenta não ser por lapso, aparenta não ser circunstancial, soa a deliberado.

Acresce uma declaração, telereportada, segundo a qual “o concelho de Loures será uma galeria de arte pública, portanto, talvez a maior da Europa e será um museu a céu aberto”. A ser levado a sério este putativo desígnio, ter-se-ia um impacto substancial nas políticas municipais que vêm sendo anunciadas, significaria mudanças orçamentais relevantes e não se sabe, mesmo, se não determinaria uma estrutura própria para satisfazer a ambição.

Certo é que faz emergir a questão de se saber em que fórum, em que momento, foi decidido e determinado esse novo rumo. Não se conhece qualquer documento ou deliberação municipal que aponte o referenciado caminho e propósito.

Evidentemente, resulta perplexidade do facto de se vir verificando uma aposta comunicada, objectiva, consistente, das políticas municipais para a Cultura - num esforço assinalável para recuperar a acção cultural e a participação cultural, das catacumbas para onde haviam sido enviadas pelos executivos anteriores – e, enigmáticamente (ou não ?!), surge alguém da própria administração municipal que sibilinamente parece pôr em questão a opção em curso.

É que uma coisa é a adopção de instrumentos de Arte Urbana como subsidiários de uma estratégia de intervenção social e requalificação urbana. Outra coisa, é subordinar estratégias de desenvolvimento a elementos artísticos disseminados, por meritórios que sejam.

Como se pode imaginar, preparar o Município para ser a maior galeria europeia das fachadas pintadas, requer a adopção de acções específicas, nesse sentido. Mas fazer do Município de Loures um “Museu a céu aberto”, seria assumir um móbil do desenvolvimento e o centro de todas as políticas e todos os investimentos municipais da próxima década.

Segundo o ICOM (a maior organização internacional de museus e profissionais de museus), “Museu é uma instituição permanente sem fins lucrativos, ao serviço da sociedade e do seu desenvolvimento, aberta ao público, que adquire, conserva, investiga, comunica e expõe o património material e imaterial da humanidade e do seu meio envolvente com fins de educação, estudo e deleite.” Parece-me suficiente, para se perceber a dimensão da tarefa aplicada a todo um Município como museu a céu aberto.

Contudo, se o que estiver em causa, com as tentativas de comparação, for apenas uma prosaica tentativa de medição de sucesso instantâneo, então merece que se diga: Francamente !...

Mundivisão, perenidade, investigação, conservação, estudo e educação são matérias de outro alcance, que nenhum hábil pincel, por si só, alcança.

Este colunista escreve em concordância com o antigo acordo ortográfico

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