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João Alexandre – Músico e Autor
João Alexandre
Músico e Autor

Ninho de Cucos

Os discos de 2016 em destaque para o Notícias de Loures

7 de janeiro de 2017
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Recusando a ideia de um best of do ano, quase sempre redutor e que normalmen- te origina discussões mais ou menos estéreis, propomo- nos nesta edição a destacar alguns dos trabalhos lançados no ano findo que, na nossa opinião, merecem esse “bold” por acrescentarem algo mais à música popular, seja pela competência e talento revelados, seja pelo factor surpresa ou simplesmente por nos tocarem a alma. 2016 não foi um ano nada mau no que à produção musical diz respeito.

A revista Pitchfork coloca a questão se não terá sido 2016 o melhor ano musical das últi- mas décadas. Bom, é difícil avaliar mas a verdade é que um ano durante o qual desaparecem nomes como David Bowie, dois ou três dias após o lançamento do seu último álbum de originais “Blackstar”, Leonard Cohen duas ou três semanas após o lançamento do, também, seu último trabalho de originais “You want ir darker”, Prince no mês de Abril e George Michael no dia de Natal é um ano que marcará pela via da tragédia a memórias de muitos. A verdade é que 2016 não foi apenas tragédia na música.

Foi uma ano de muita atividade a começar literalmente pelos veteranos, neste caso David Bowie, que iniciou o ano a dar- nos “Blackstar”, um disco pre- monitório do seu fim, mas sóli- do até quando a sua voz frágil e cansada é reveladora da débil saúde do artista. Nick Cave com “Skeleton Tree”, Iggy Pop com “Post pop depression” e Leonard Cohen no já referido “You want id darker” lançaram excelentes trabalhos. Discos que marcam a carreira de artistas inspira- dos e não discos que apenas preenchem a carreira ou justi- ficam a contratação para mais uma dúzia de festivais no ano.

Fora da categoria de veteranos destacamos os britânicos Slow Show com o segundo álbum “Dream darling”, um daque- les casos de uma empatia construída na Europa Central, longe de casa, em concer- tos em catedrais da Bélgica, Alemanha, Suíça e Holanda para um público adulto, atento e apaixonado pelas melodias e arranjos de beleza superior conduzidos pelo teclista e pro- dutor Frederik 't Kindt, supor- tados pela bela voz de barítono de Rob Goodwin. Excelente é também o álbum do canadiano Andy Shauf “The Party”, pra mais quando nos seus espetáculos apresenta uma banda incrível capaz de recriar todos os detalhes, pau- sas e silêncios que a incrível música de Shauf transporta. Numa das edições anteriores do NL apresentámos Angel Olsen e, de facto, o álbum de 2016 “My woman” é de uma unanimidade rara junto da crítica mundial, para uma artis- ta que não é propriamente mainstream. Mais que justo.

Se derem um salto ao Spotify e escutarem os primeiros 10 minutos do disco perceberão porquê ... ou talvez não, se forem à espera de uma nova Rihanna, sem desprimor para a excelente cantora negra. Por falar em negra ou more- na, Solange é o último grito das tendências de listas de “best of” que proliferam por estes primeiros dias do ano, um pouco por todo o lado. A artista tem uma formidável “hype” e o álbum, terceiro de originais, “Seat at the table”, é tão diferente dos antecessores que quase fica irreconhecível, mas para muito melhor. RnB do melhor, introspetivo sem grandes artifícios, secções rítmicas relaxadas abrindo sempre espaço para a voz quente de Solange Knowles, temas por vezes despidos, muito elegantes, pautados por apontamentos de eletrónica e que contaram com o contributo de Raphael Saadiq, Dave Longstreth, e Adam Bainbridge, três experts na matéria RnB e pop rock mais requintado.

Por último realce para os americanos Diiv com o novo álbum, “Is the is are”, gravado à luz de muitos problemas pelos quais a banda passou e que vão da prisão por posse de drogas ao abandono do baixista, entre outros. Neste caso parece que os problemas culminaram em forças em vez de fraquezas, pois “Is the is are” é uma delícia fresca de dream pop, shoegaze, krautrock até chegar ao sónico mais abstracto a modos de Sonic Youth, de Kim Gordon, quando a convidada luso-americana Sky Ferreira declama no tema “Blue Boredom”. Obviamente poderíamos aqui considerar dezenas de outras excelentes escolhas, pois 2016 deixa larga margem, felizmente. Pelo mesmo prisma queremos ainda destacar dois álbuns de artistas nacionais, Capitão Fausto – “Têm os dias contados” e Gisela João – “Nua”. Os Capitão Fausto, produzidos pelo “portelense” Nuno Roque, são a melhor imagem que se poderia fazer de um pop rock cantado em português.

Gisela João faz de cada interpretação um desafio sempre superado, apoiado em letras sábias e nobremente malandras. Num e noutro caso músicos excelentes ajudam à festa. Que venha um excelente 2017 para todos!

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