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Opinião
Gonçalo Oliveira – Actor
Gonçalo Oliveira
Actor

P'la caneta afora

As voltas da Vida

6 de janeiro de 2020
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A vida (para uns! Ou para todos?), de uma maneira ou de outra, é madrasta, diz a sabedoria popular, partindo da suposição de que todas as madrastras são terríveis e maléficas como a do conto de fadas da nossa infância, conhecida como Cinderela. Que contradição – ou não!

Um conto de fadas com uma personagem tão terrífica! Mas a vida dá muitas voltas! E a vida dos actores, que antes de o serem e depois de o serem também, são comuns mortais iguaizinhos a qualquer um outro comum mortal. Aqui ficam só para memória futura dois exemplos!

O actor português José Lopes foi encontrado morto esta na tenda onde vivia nos arredores de Sintra. Aos 61 anos, o actor vivia na pobreza após uma carreira no cinema e no teatro que terminou no desemprego e precariedade. António Alves Fernandes, seu amigo, no Facebook deixava cair com estrondo a notícia: “Aos 61 anos, este andarilho da cultura foi encontrado morto na tenda onde dormia (desde que a segurança social lhe cortara o rendimento mínimo), nos arrabaldes de Sintra, junto a uma estação de comboios”.

E António Alves Fernandes continuava: o José Lopes pagava a factura de “uma precariedade que afeta os verdadeiros artistas que não se vendem por ‘dá cá aquela palha’, um desemprego de longa duração, o fado português de o mérito artístico não ser reconhecido, a doença e a pobreza extrema”.

De alguma forma e ainda bem e de forma mais que merecida, no reverso da medalha, Maria do Céu Guerra recebeu o prémio de honra "Actress of Europe", que é atribuído desde 2003 por um comité para reconhecer o percurso artístico de uma personalidade do teatro e o contributo criativo para a memória coletiva da civilização europeia, lê-se na página oficial do Festival Internacional de Teatro que decorreu no Lago de Prespa, nos Balcãs, na fronteira entre Macedónia, Albânia e Grécia.

"Aos 75 anos, é uma das mais extraordinárias atrizes do teatro português e a alma da companhia teatral independente A Barraca", sustenta o comité, presidido por Jordan Plevnes. E Maria do Céu Guerra ganhou também o Prémio Vasco Graça Moura-Cidadania Cultural.

Não resisto a transcrever algumas linhas do discurso de Maria do Céu Guerra ao agradecer tão prestigiado Prémio: “Teatro Cidadão é em primeiro lugar um Teatro que, em todas as áreas da sua expressão, dos conteúdos às formas, que em arte são por si só conteúdo, à ética e ao comportamento, se bata pela liberdade. Liberdade mas não só a própria.

A de todos. Um Teatro que se bata por abrir perspetivas, que se preocupe em como serão os nossos jovens daqui a dez anos, quando lhes for dado fazer alguma coisa pelo seu país e pelo mundo. E não apenas os jovens que têm livros em casa e drs. no adn. Gente que venha não importa de onde e queira saber.

Que tenha nascido e ainda resida em áreas que os programadores portugueses não consideram de excelência cultural. Gente que esteja à partida condenada por isso. Mas que seja sensível. E que não se resigne. Um Teatro que dê combate ao elitismo, sem tréguas. Que faça escola, que ensine, que dê a ler, que dê a ver. Um Teatro que não deixe para traz os milhões de portugueses que também pagam os impostos donde vêm as verbas para a cultura, mas que moram longe.

Um Teatro que assuma a responsabilidade de valorizar a sua língua. E os seus autores. E que sem nacionalismos crie relações e respeite os países e os espaços onde esta língua esteja viva e queira ter futuro.” Dois exemplos! Apenas para memória futura! Bom e Feliz Ano Novo!

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