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Opinião
Florbela Estevão – Arqueóloga e Museóloga
Florbela Estevão
Arqueóloga e Museóloga

Paisagens e Patrimónios

Os desaparecidos Aguadeiros do Sifão de Sacavém

5 de julho de 2020
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Junto à Praça da Républica em Sacavém, próximo do Sifão do Canal do Alviela que atravessa o rio Trancão, existe uma escultura inserida no espaço público, uma cabeça de grande dimensão que interpela os transeuntes sobre a sua proveniência. Trata-se de um fragmento de uma escultura maior, mais precisamente da figura de um aguadeiro, que, em 1940, se encontrava numa das extremidades daquele sifão.

O Sifão de Sacavém, construído nos começos da década de 1880, integrou um importante projeto de engenharia hidráulica conhecido como o Canal do Alviela, que tinha como propósito abastecer com as águas do rio Alviela a populosa cidade de Lisboa e concelhos limítrofes. Durante o período do Estado Novo e sob a tutela do engenheiro Duarte Pacheco, na altura ministro das Obras Públicas e Comunicações do governo de Salazar, a estrutura do Sifão sofreu obras de melhoramento. Terá sido durante essa intervenção, em 1940, que foram colocadas nos extremos do referido sifão duas esculturas alusivas a aguadeiros, destinadas a servir como fontes.

As peças escultóricas evidenciavam a estética do Estado Novo, pois eram duas portentosas esculturas em betão armado que foram colocadas nos extremos do Sifão, cada uma delas representando um aguadeiro, com sete metros de altura, um joelho assente no chão, e na atitude de esvaziar um cântaro de água. A monumentalidade e robustez das duas obras em causa pretendiam representar, alegoricamente, a capacidade do homem em triunfar sobre a natureza adversa, neste caso através da construção do Sifão. Tal sucesso era simbolizado nas estátuas, que exprimiam o esforço e empenho de aguadeiros de corpo robusto que, com tremendo esforço físico espelhado nas esculturas, apareciam a transportar pesados cântaros.

A obra resultou de uma parceria entre os arquitetos Carlos e Guilherme Rebelo de Andrade e do escultor Maximiano Alves. Todavia o projeto, segundo os conceitos da época, revelou-se como sendo pouco adequado ao espaço a que se destinava. Não se enquadrava, de acordo com essa visão, na malha urbana dessa zona de Sacavém, uma vez que as condicionantes geográficas do terreno circundante não permitiriam a contemplação de esculturas tão grandiosas. Tal posição levou a que, dois anos após a sua colocação, as estátuas fossem apeadas e desconjuntadas. Durante muito tempo os seus restos ficaram armazenados no parque da EPAL junto ao referido sifão do qual aquela empresa é proprietária. Porém, em 1998, aquando do projeto de requalificação da foz do Rio Trancão, foi decidido recuperar uma das cabeças dos aguadeiros, tendo sido recolocada no espaço público, nas imediações do seu local original. Podemos lamentar a destruição de tais estátuas, que apesar de representarem um estilo salazarista, não deixavam de constituir uma etapa da história do local e sua monumentalização. Elas exprimiam para o futuro um estilo e uma mentalidade, de que felizmente nos afastamos nos tempos recentes.

Quem foi o escultor português Maximiano Alves? Foi um artista formado na Escola de Belas-Artes de Lisboa, curso que concluiu em 1911, tendo sido aluno do escultor Simões de Almeida, seu tio, e dos pintores Luciano Freire e Ernesto Condeixa. Nasceu em Lisboa nos finais do século XIX, a 22 de agosto de 1888, filho de um gravador da Casa da Moeda, e faleceu em 1954. Durante a sua vida produziu várias obras escultórias, não só os Aguadeiros de Sacavém (1940), tema desta crónica, mas também muitas outras, como as Esculturas da Fonte Monumental da Alameda de D. Afonso Henriques (1940), ou o Monumento aos Mortos da Grande Guerra (1931) da Avenida da Liberdade, em Lisboa, e que todos conhecemos. Maximiano Alves foi agraciado com o grau de oficial da Ordem de Cristo (1932), distinção atribuída pela participação na conceção e execução do já referido Monumento aos Mortos da Grande Guerra. Colaborou artisticamente numa publicação mensal, Alma Nova, revista ilustrada de arte, ciências e literatura, editada pela Biblioteca da Alma Nova e Sociedade Amigos do Algarve, sob a direção de António Júdice Bustorff e Mateus Moreno.

Hoje, o conjunto do sifão e da monumental cabeça continuam a fazer parte do património da Empresa Portuguesa de Águas Livres, e estão associados ao grande projeto de abastecimento de água à cidade de Lisboa conhecido como Canal do Alviela. Esta importante obra, iniciada nos finais do século XIX, como já foi aludido, assegurava o transporte de água entre as nascentes dos Olhos de Água (Alcanena), situada a 114 Km a norte de Lisboa e o Reservatório dos Barbadinhos na capital. Recordo ainda que junto do Reservatório dos Barbadinhos foi construída uma estação elevatória a vapor, inaugurada em 1880, destinada a bombear água do aqueduto do Alviela para a cidade de Lisboa, marco do abastecimento de água às residências da cidade, a qual hoje conta aí com o Museu da Água.

Nota: Na edição anterior deste jornal impressa em papel, por lapso de edição, figuram elementos que não se destinavam a fazer parte de qualquer artigo, mas antes eram apenas notas de trabalho. Advertida para o assunto, a edição on-line do jornal veio corrigida, pelo que é ela que o leitor interessado se deve reportar.

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