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Opinião
Florbela Estevão – Arqueóloga e Museóloga
Florbela Estevão
Arqueóloga e Museóloga

Paisagens e Patrimónios

O Aqueduto de Santo Antão do Tojal

30 de novembro de 2017
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Numa altura em que a água é um dos temas da atualidade, dada a sua óbvia importância para a sobrevivência do Homem e também da vida no nosso planeta, por um lado, e, por outro, levando em consideração uma das causas da Associação de Defesa do Património de Loures (ADAL) para o ano de 2018, considerei oportuno salientar, nesta crónica, o grande Aqueduto de Santo Antão do Tojal. Este monumento do nosso património reúne em si vários pontos de interesse: não só é uma obra classificada como Monumento de Interesse Público, que importa por isso salvaguardar e valorizar, como constitui, ainda hoje, apesar de “interrompido” nalguns pontos, um marco assinalável na paisagem pela sua imponência. Ele remete-nos, evidentemente, para o uso da água, e para as múltiplas nascentes que caraterizam esta zona do território do concelho de Loures, designada há muito tempo como a Serra de Água.

Como é do conhecimento geral, um aqueduto é um canal ou uma galeria, normalmente constituído por um troço subterrâneo e um outro à superfície, feito com a finalidade de conduzir água. Como, na sua generalidade, este tipo de obra visa o transporte de água de um ponto alto, uma nascente, para um ponto mais longínquo e mais baixo junto a um núcleo urbano, tal fato implica muitas vezes o atravessamento de vales, cujo desnível é vencido através de estruturas em arcaria. Para garantir o escoamento, este tipo de edificação apresenta sempre uma inclinação mínima, para que a água possa correr. Contrariamente, os aquedutos mais modernos podem ser subterrâneos porque o escoamento é conseguido sob pressão, usando para o efeito bombas motorizadas para elevar a coluna de água.

Já na antiguidade todas as civilizações construíram aquedutos, como por exemplo a China, a Assíria, a Grécia e Roma.

Ora, o Aqueduto de Santo Antão está relacionado com o Grande Aqueduto das Águas Livres de Lisboa, não só por serem do mesmo período - ambos são construções do séc. XVIII - e partilharem a mesma funcionalidade, mas por possuírem ainda mais um elemento em comum, pois ambos estão ligados à figura do arquiteto italiano António Canevari.

Quem foi este António Canevari, responsável não só pelo projeto do Aqueduto de Santo Antão do Tojal, mas igualmente pela conceção da Praça Monumental desta vila?

António Canevari, arquiteto conceituado nascido em Roma em 1681, cedo se tornou conhecido por ter recebido, ainda em 1703, um prémio de um concurso de desenho promovido pela notável Academia de São Lucas. Este prestigiado arquiteto chega a Lisboa em 1727 para fazer parte dos trabalhos iniciais que visavam a construção do Aqueduto das Águas Livres, obra diligenciada pelo rei D. João V. Cuidava o monarca, com esta obra pública de grande imponência, não só reforçar o seu poder simbólico de rei absoluto, como contribuir para a resolução de um problema sério da cidade de Lisboa em acelerada expansão urbana: o abastecimento de água à população. O nosso italiano colaborou na primeira fase deste projeto, mas cedo abandonou a equipa, continuando a desenvolver outras obras promovidas pelo rei ou por outros grandes dignatários da nobreza portuguesa ou ainda por representantes de altos cargos eclesiásticos.

Com efeito, este arquiteto italiano esteve em Portugal apenas quatro anos, e durante a sua estadia executou várias obras, muitas infelizmente destruídas com o grande Terramoto de 1755. Apesar deste desaire, ainda podemos observar um dos seus feitos arquitetónicos, a Torre da Universidade de Coimbra. Essa Torre da Universidade, também conhecida como a esbelta Cabra, foi construída entre 1728 e 1733, e é um dos poucos exemplares que subsistiu da obra de Canevari.

O Aqueduto de Santo Antão do Tojal, outra das obras do italiano, foi edificado em 1728 a pedido do primeiro patriarca de Lisboa, D. Tomás de Almeida, patrocinador da obra. Esta é, sem qualquer dúvida, um exemplar importante da arquitetura civil barroca, não sendo de estranhar que incorpore um conjunto de outros edifícios também já classificados pelo Estado português: a Praça Monumental de Santo Antão do Tojal, espaço urbano que engloba o Palácio da Mitra, a Fonte Palácio, a Igreja Matriz, dois chafarizes, o extraordinário portão de entrada e toda a área murada da antiga Quinta do Patriarca. Neste contexto, o aqueduto está agregado a toda uma vasta área urbana classificada como Imóvel de Interesse Público desde 1940, a qual em 2012 passou a ser designada como Monumento de Interesse Público.

O Aqueduto de Santo Antão do Tojal tem cerca de dois quilómetros de comprimento, com uma parte subterrânea próxima da sua nascente em Pintéus, e um troço a descoberto apresentando arcos simples assentes em grossos pilares. A construção visava principalmente alimentar a magnífica Fonte Palácio, a qual, como já foi referido, era a peça arquitetónica central da praça então projetada; mas também fornecer água à Quinta do Patriarca e à população de Santo Antão do Tojal. Associados ao aqueduto foram construídos, na mesma época, dois chafarizes destinados ao abastecimento da população, sendo o mais extraordinário o Chafariz dos Arcos, por estar localizado próximo do aqueduto, junto à estrada nacional 115.

Ao longo do tempo o aqueduto foi objeto de várias intervenções, as primeiras em 1960 e 1978. Mas foi somente em 1991 que foi alvo de um restauro de maior envergadura, liderado por uma equipa técnica da então Direção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais, numa operação faseada, entre 1992 e 2000. De qualquer maneira, e apesar do restauro, continua interrompido (isto é, destruído) em alguns troços, e também se perdeu a sua ligação à nascente. Mas, e apesar disso, para além da sua valia arquitetónica, não podemos esquecer o seu contexto histórico, que nos remete para D. João V e suas passagens pela quinta de D. Tomás de Almeida (apelidado na época como “um grande e magnífico senhor”), nomeadamente para a bênção dos sinos durante o transporte destes para a Real Obra de Mafra. Enfim, este monumento e o conjunto em que se integra são, sem dúvida alguma, valiosos elementos, que qualificam o nosso território de Loures.

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