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Opinião
Florbela Estevão – Arqueóloga e Museóloga
Florbela Estevão
Arqueóloga e Museóloga

Paisagens e Patrimónios

Igreja e Convento de Sacavém

2 de julho de 2016
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O conjunto de arquitectura reli¬giosa, constituído pela Igreja de Nossa Senhora da Purificação, actual igreja paroquial e o anti¬go convento de Nossa Senhora da Conceição e dos Mártires de Sacavém, destaca-se na pai¬sagem urbana pela sua impo¬nência em relação ao restante casario. Na realidade, para quem está na Praça de República, a igreja - belo exemplar maneiris¬ta com a sobriedade própria da Contrarreforma - detém o nosso olhar pela sua volumetria, mas também pela circunstância de se localizar num pequeno morro junto ao rio Trancão, o que a eleva em relação ao nível da refe¬rida praça. Na altura da sua cons¬trução, no séc. XVI, Sacavém estava dividida em Sacavém de Cima e de Baixo e era neste último local, junto da passagem à barca que garantia a travessia do curso de água, que se localizava não só a zona do porto fluvial, mas também o rossio, o qual, como é sabido, designa habi¬tualmente um logradoiro público, praça larga ou terreiro para uso da comunidade.

A devoção

Tanto a edificação do convento como da sua igreja não podem ser dissociadas do seu patro¬no, D. Miguel de Moura, figura importante na época (séc. XVI) e que exerceu cargos relevantes ao nível administrativo e político na corte, tendo conseguido reu¬nir as condições indispensáveis para levar por diante tão signifi¬cativa obra. De facto, ao casar com D. Brites da Costa recebeu como dote de sua mulher uma propriedade, uma "quintaã”, con¬tigua à antiga Ermida de Nossa Senhora dos Mártires. Esta quin¬ta em Sacavém era um prazo de duas vidas de baixo valor, foreira do Hospital do Rei em Lisboa, que ele, D. Miguel, cuidou de engrandecer com a construção de umas casas para lhe servirem de morada. Nas suas memórias menciona que outra vantagem desta propriedade era a sua pro-ximidade com a Ermida de Nossa Senhora dos Mártires, lugar de devoção, relacionada com mila¬gres e associada, segundo a tradição, a uma vitória de D. Afonso Henriques, que naquele local teria conseguido derrotar “os infiéis”, apesar do grande número destes.

Embora as casas se destinas¬sem a morada civil, houve uma razão que levou o proprietário a alterar o seu propósito inicial e a transformar a residência num mosteiro. Com efeito, em 1576, D. Miguel de Moura acompanha¬va D. Sebastião numa viagem ao santuário de Nossa Senhora de Guadalupe, em Espanha e terá sido próximo de Évora que soube da notícia de um grave acidente de sua mulher e das circuns¬tâncias em que ela se salvou, o que terá motivado a resolução de construir uma obra devota. D. Brites estava na sua casa de Lisboa, na Pampulha, quando se deu uma violenta explosão num dos arsenais, a qual des¬truiu muitos edifícios, incluindo a sala onde ela se encontra¬va com a morte de alguns dos seus criados. Embora soterrada pelos escombros e com algumas escoriações, D. Brites sobreviveu e atribuiu esse facto a Nossa Senhora da Conceição, cuja ima¬gem tinha acabado de vestir para colocar no seu oratório e a qual também não tinha sofrido qual¬quer dano, apesar do aparatoso acidente. Assim, é esta a justifi¬cação que nos dá D. Miguel de Moura para fundamentar a sua decisão.

Um ano depois deste acidente, a 14 de Julho de 1577, um breve do Papa Gregório XIII autoriza, a ele e à sua esposa, a funda¬rem um mosteiro de freiras da regra de Santa Clara (Ordem Franciscana das Clarissas), sob a evocação de Nossa Senhora da Conceição dos Milagres. Mas, para esta nova instituição poder funcionar, era também necessá¬rio dotá-la de rendimentos. Uma provisão de D. Sebastião, data¬da de 26 de Junho de 1578, determinou que D. Miguel de Moura fundasse o Mosteiro de Sacavém, com os mesmos bens do Mosteiro da Madre de Deus, constando de 500 mil reais, três arrobas de cera, uma pipa de vinho, uma pipa de vinagre, uma pipa de azeite, quatro arrobas de arroz de Valença, dois quintais de amêndoas, seis peças de figo, seis arrobas de passas e 150 varas de pano. Depois, uma carta do Cardeal D. Henrique autoriza aos padroeiros a execução do breve pontifício a 27 de Janeiro de 1580 e, no ano seguinte, entram as primeiras monjas, pro¬venientes do convento da Madre de Deus de Lisboa. Mais tarde, o rei D. Filipe I confirma a pro¬visão e a doação por D. Miguel de Moura do padroado e casas de residência ao convento de Sacavém e determina que o con¬vento passe a estar sob a pro¬tecção real. Somente em 1596 é lançada a primeira pedra da igre¬ja conventual, também pela mão do seu padroeiro, o qual acabaria por morrer antes da conclusão da obra. Essa cerimónia da primeira pedra ocorreu num domingo, 1 de Setembro de 1596. Celebrou o ofício religioso o Patriarca de Jerusalém, legado do Papa; estiveram presentes D. Miguel de Moura, então governador do Reino de Portugal (ou seja, no reinado de Filipe II de Espanha) e sua esposa, acompanhados por fidalgos do reino, entre os quais o conde de Penaguião, D. João Rodrigues de Sá (camareiro-mor do Reino) e o conde de Tarouca, D. Luís de Menezes.

Segundo as Memórias Paroquiais, tanto o convento como a igre¬ja sofreram danos aquando do terremoto de 1755, tendo sido difícil para as religiosas conse¬guirem os meios imprescindíveis para a sua recuperação. Apesar de estarem sob protecção real, as suas fontes de rendimento eram insuficientes; muitas foram as suas as queixas manifestando essa realidade, confirmadas em vários documentos.

Com a nacionalização dos bens das ordens religiosas em 1834 e com a proibição das casas regulares femininas de acolher noviças, esta instituição religio¬sa entra em franco declínio e o edifício da igreja degrada-se. Em 1863, quando só já ali existia uma freira, o Cardeal-Patriarca de Lisboa, D. Manuel Bento Rodrigues, determinou que a igreja conventual passasse a Igreja Matriz de Sacavém, substi¬tuindo a pequena Igreja de Nossa Senhora da Vitória de Sacavém de Cima. Nessa mesma altura, o orago passou a ser Nossa Senhora da Purificação, deixan¬do a sua antiga evocação con¬ventual de Nossa Senhora da Conceição dos Milagres e dos Mártires, como já anteriormente referido.

Em Fevereiro de 1877 procedeu-se à inventariação dos objectos do convento, tendo a referida freira sido enfim transferida, a seu pedido, para o convento de Santana, em Lisboa. Por fim, por decreto de 24 de Maio de 1877, o edifício foi entregue ao Ministério da Guerra (actual Ministério da Defesa Nacional), com exclu¬são da Igreja e algumas casas adjacentes, onde funciona desde então a residência do padre. Quanto à zona do antigo con¬vento, funcionou ali o Regimento de Artilharia Pesada, a Escola Prática do Serviço de Material e o Batalhão de Adidos do Exército Português.

O Templo

O templo, singelo e sóbrio, é constituído por dois blocos, a nave principal e a capela-mor. A entrada é feita lateralmente, uma vez que antes de ser matriz era uma igreja conventual e portanto estava em relação íntima com o espaço das freiras clarissas. Apresenta um telhado com duas águas, possuindo do lado da cabeceira, no topo da torre sinei¬ra, um zimbório. Nessa mesma torre, a meia altura, destaca-se um nicho com uma imagem de Santa Clara. No seu interior, nos altares laterais, podemos observar as representações de São Miguel Arcanjo e de Nossa Senhora da Conceição. Segundo a tradição, a pia baptismal que aqui se encontra corresponde ao reaproveitamento da antiga cúpula de um mirante da fortifi¬cação erigida por um tal Bezai Zaide, virada ao contrário. Esta personagem lendária teria sido o alcaide mouro de Sacavém der¬rotado na batalha de 1147, que, convertido ao Cristianismo, se teria tornado no primeiro ermitão da Ermida de Nossa Senhora dos Mártires, entretanto substituída pelo convento da mesma evo¬cação por D. Miguel de Moura e D. Brites da Costa sua esposa, como expus.

Este colunista escreve em concordância com o antigo acordo ortográfico

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