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Florbela Estevão – Arqueóloga e Museóloga
Florbela Estevão
Arqueóloga e Museóloga

Paisagens e Patrimónios

A inscrição funerária de Frielas

10 de março de 2020
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Esta minha crónica de março incide sobre um monumento epigráfico raro e de grande importância histórica: a inscrição funerária muçulmana de Frielas. Trata-se de um dos poucos exemplares até agora inventariados no nosso país, nomeadamente na zona de Lisboa.

A sua raridade e importância justificaram a sua classificação pelo Estado português como um bem móvel de interesse nacional (Tesouro Nacional|D.L.19/2006, de 18 de julho), o que certifica o valor de testemunho civilizacional da mesma.

A lápide original encontra-se depositada no Museu Nacional de Arqueologia (Lisboa), existindo uma réplica no Museu Municipal de Loures (Quinta do Conventinho) atualmente integrada na exposição “No caminho para a interculturalidade. Desde quando?”.

Aliás, a inscrição funerária de Frielas incorporou várias outras exposições, como por exemplo a Exposição Universal de Sevilha, em 1992, no Pavilhão de Portugal, integrando o núcleo "Portugal - A Formação de um País", ou a exposição itinerante "Memórias Árabe-Islâmicas" no Museu da Cidade (de Lisboa) em novembro de 1997, apenas para mencionar duas. Trata-se de uma lápide em mármore, incompleta, de forma retangular, constituindo a parte superior de um epitáfio, sem referência ao nome do defunto, nem à data da sua morte.

Terá sido encontrada numa casa de campo em Frielas, nos finais do século XIX. A referida lápide apresenta um arco ligeiramente apontado, em relevo, no interior do qual se encontra a inscrição numa escrita pseudo cúfica arcaizante, segundo os investigadores, inscrição que pode ser traduzida do seguinte modo: “Eterno é Deus.

Tem compaixão conforme a tua mercê, ó tu que tudo dominas, e olha [com misericórdia] o sítio para onde fui mandado". Relativamente à sua datação alguns estudiosos apontam para se tratar de uma lápide do século XI-XII, mas esta interpretação não é consensual.

Efetivamente, uns consideram-na do século XI, outros sugerem que poderá ser mais tardia, com base na depurada estilização do arco, bem como na forma dos caracteres e na utilização frequente de diacríticos (sinais gráficos que se colocam sobre, sob ou através de uma letra para alterar o seu som).

Alguns textos deste período permitem-nos ter uma visão do que seria a cidade de Lisboa e os seus arredores. Uma das fontes mais esclarecedores das características da civilização islâmica na cidade é a conhecida Carta de Osberno (séc. XII), que relata a conquista de Lisboa aos mouros. Osberno foi um dos cruzados ingleses que incorporou a esquadra cristã à conquista de Lisboa, em 1147, e que fica admirado com a grandeza da mesma, suas riquezas e diferenciada e numerosa população. Segundo as suas palavras “Ao norte do rio está a cidade de Lisboa, no alto dum monte arredondado e cujas muralhas, descendo a lanços, chegam até à margem do Tejo, dela separado apenas pelo muro.

Ao tempo que a ela chegámos, era o mais opulento centro comercial de toda a África e grande parte da Europa (…).” Sublinha ainda que “A causa de tamanha aglomeração de homens era que não havia entre eles nenhuma religião obrigatória; e como cada qual tinha a religião que queria, por isso de todas as partes do mundo os homens (…)” acorriam.

Recorrendo a outra fonte, desta vez o geógrafo árabe Al-Zuhrῑ, na sua obra Kitāb al-Ja‘rāfiyya, Lisboa é apresentada como um lugar rico não só em ouro, ocorrendo nomeadamente em Almada, mas igualmente próspera em produtos alimentares: “(…) a cidade de Lisboa, que está no final deste rio conhecido como Tejo, onde desemboca no mar. Nela situa-se o segundo local onde se encontra ouro. E não há ouro em al-Andalus a não ser em [três] lugares (...)”, sendo um deles precisamente Lisboa. “(...) Esta cidade tem muitos víveres em produtos hortícolas, cereais e outros.

Nela há maçãs como as da Arménia, cujo diâmetro é de três palmos, mais ou menos.” A antiga cidade de Lisboa, desde o final do século XI e principalmente ao longo do século XII, assume uma relevância cada vez maior relativamente a outras cidades da península, com um comércio crescente por terra e por mar. Era uma cidade cosmopolita, onde habitavam pessoas de várias proveniências e religiões.

Como é bem sabido, a conquista árabe do território conhecido como o Gharb al-Andalus, onde se inclui Lisboa, foi sobretudo alcançada através de acordos com as comunidades aí residentes, a quem foram permitidos os seus direitos relativamente à posse de terras e bens, mas também, aspeto crucial, a liberdade religiosa.

A cidade medieval e os seus arrabaldes articulavam-se com as regiões limítrofes, essenciais para providenciar bens alimentares à população da urbe e também produtos para o intercâmbio comercial. Subsistem alguns testemunhos desse período, na toponímia, no registo arqueológico, nas fontes escritas… O monumento epigráfico que aqui recordo é disso um bom exemplo.

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