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Implicações no retrato criminal e perceções de segurança

SIMULAÇÕES DE CRIME

6 de maio de 2019
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O crime e o sentimento de insegurança sentido pela população são duas dimensões que andam sempre de mãos dadas, sendo o primeiro um fator primário que mais condiciona a visão securitária da realidade. Mais do que o crime em si, é o medo do crime que mais peso tem na forma como observamos o que nos rodeia (destacar) e que redundam em sensações negativas e visões que são, amiúde, retorcidas por uma falsa perceção do rosto que o crime tem no espaço.

As estatísticas criminais são, com efeito, instrumentos basilares na forma como a Polícia acompanha e decompõe o crime, desenvolvendo esforços analíticos permanentes essenciais para a tomada de decisão no que toca à metodologia de policiamento, mormente em dois grandes vetores, o policiamento orientado para o problema (POP) e o policiamento orientado pelas informações (POI), almejando, sobretudo no quadro da prevenção, lógicas de eficiência e eficácia apuradas que nos permitam identificar e deter os perpetradores criminais.

As simulações crime, que não são mais do que falsas denúncias, normalmente baseadas em motivações frívolas, são geradoras de falsos positivos que condicionam de sobremaneira as estatísticas criminais e a sua análise, e que tornam a conversão do crime real em crime estatístico altamente contingente. Este desfecho produz efeitos muito perversos na forma como a Polícia mobiliza e direciona o seu dispositivo, conduzindo esforços para locais ou zonas sem expressão criminal, ao mesmo tempo que vai esboroando subjetivamente os níveis de segurança sentidos pelas populações.

O que se tem observado, cada vez mais, é que há cidadãos, não raras vezes alheados do carácter criminal deste tipo de condutas, que constroem falsos cenários de crime e os reportam às autoridades tendo em vista o ressarcimento patrimonial de determinado objeto que estava segurado, ou até como forma de branquear e ocultar junto das suas entidades patronais a responsabilidade por ter perdido, danificado e até apropriado [ilegitimamente] bens alheios, das propriedades destas, que lhes estavam acessíveis. Este tipo de práticas comportam uma dimensão ainda mais grave por estarem normalmente associadas a falsas reproduções de crimes violentos, sendo o Roubo o mais comum, por ser, e no que diz respeito às burlas às seguradoras, a única forma de ir ao encontro dos quesitos fixados nas apólices contratuais.

Conscientes deste flagelo, a Divisão de Loures da PSP tem desencadeado um esforço crescente, com a formação de equipas especializadas, no sentido de detectar este tipo de situações, vindo a sinalizar, desde o início de 2018, até à presente data, mais de 80 simulações de crime cometidas nos concelhos de Odivelas, Loures e Torres Vedras, representando um aumento de 69% comparativamente ao período homólogo imediatamente anterior. Em termos percentuais estes números representam cerca de 10% de todo o crime violento e grave, sendo incontestavelmente revelador da penosidade que estas simulações teriam caso não tivessem sido desvendadas.

É caso para revisitar as palavras de Mahatma Gandhi, “assim como uma gota de veneno compromete um balde inteiro, também a mentira, por menor que seja, estraga toda a vida”. As simulações têm um potencial de tal forma danoso que poderão, no limite, comprometer a segurança das pessoas e até dos próprios, ao estarem a contribuir para quadros insecuritários ilusórios que orientarão erradamente o trabalho preventivo e proativo da Polícia junto da comunidade.

Bruno Pereira

Comissário

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