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A opinião de Khalid Sacoor D. Jamal

Islão V.2

24 de maio de 2017
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As religiões têm hoje, todas elas, uma vida difícil, fruto de um inimigo comum, o chamado secularismo militante, que pretende eliminar a religião por completo da praça pública, seja esta sob a forma de discussão ou prática, o que comporta o malogrado fenómeno da aversão religiosa, que origina, não raras vezes, uma insuficiência identitária: uma completa ausência de valores, que conduz à imoralidade e ao desnorte geral.
Os crentes terão de enfrentar, no futuro próximo, o desafio de encontrar novas formas radicais para praticar a sua fé. Dito isto, creio ser possível, viver em países na condição de minoria, sustentando a nossa identidade e vivendo a nossa fé, contribuindo para o Deus comum.
É preciso porém, não esquecer que o Islão, por vezes, tem formas fanáticas, aliás como todas as outras religiões, que levadas ao extremo, conduzem a bárbaras teocracias com efeitos nefastos para a vivência saudável em sociedade.
Impõe-se pois, neste contexto, que os líderes religiosos sejam um exemplo, transmitindo uma mensagem simples, mas com conteúdo e de amor para com o próximo e que passemos das palavras aos actos, gabe-se a recente visita do Papa à Mesquita de Al Azhar, considerada, um dos baluartes do pensamento erudito da corrente sunita do Islão.
O que faz então com que, ao contrário da tendência dominante no Ocidente da secundarização da religião o Islão seja tão sedutor, pedindo aos fiéis o sacrifício da fome, durante todo o dia, com êxitos notáveis?
Esta dimensão mística do Islão, assenta sobretudo em três factores:
Primeiramente o conteúdo da mensagem é intemporal, imutável e absoluto, logo mais forte – as regras são as mesmas de há 1400 anos atrás.
Segundo, a prática é diária e formalista, existindo uma espécie de renovação espiritual constante quotidiana e o rigor pelo cumprimento das fórmulas confere aparentemente outra força e soberba à prática e por conseguinte à fé, não a esvaziando.
Se a isto juntarmos uma liderança forte, com um timoneiro, usando o vernáculo náutico, que nos diga para onde vamos e o que queremos alcançar, teremos um de dois resultados possíveis: muçulmanos descomplexados e plenamente assimilados do ponto de vista cultural e não menos religiosos ou um cocktail explosivo que origina as barbáries com que por vezes somos confrontados, donde relevam sobretudo a ilusão e a liderança medíocre.
O Ramadão é o terceiro pilar do Islão e o nono mês do calendário islâmico. Diz a palavra de Deus, plasmada no Alcorão que o Ramadão é o mês em que as portas do Paraíso se abrem e é um mês de Graça e de Bênçãos, no qual as misericórdias de Deus se estendem sobre a terra.
Os muçulmanos jejuam, portanto abstém-se de comer, fumar, beber e/ou praticar relações enquanto dura o dia, comendo frugalmente após o pôr-do-sol.
Jejum é uma palavra usada para definir de modo algo amplo o decréscimo da dieta alimentar próximo a valores nulos, de modo pré-determinado.
Pratica-se em razão de várias crenças, quer sejam estas de ordem política, moral, medicinal e sobretudo religiosa, aliás não sendo o Islão a única religião do livro que impõe sacrifícios e interdições alimentares.
Os fins do jejum obrigatório são sobretudo quatro: I) sentir a omnipresença de Deus II) o ensino do autodomínio III) passar voluntariamente o sacrifício que outros passam por força da necessidade IV) purificação espiritual – ritual simbólico de renúncia às necessidades mundanas e foco na espiritualidade.
Acrescente-se o pormenor científico que não é indiferente: o jejum é hoje recomendado com fins medicinais, existindo teorias que comprovam o seu auxílio na cura de doenças e patologias, designadamente diabetes, gota, tromboses e artrites.
No plano da experiência pessoal deverá dizer-se que o Ramadão atrai, também por ser exigente. Porque é que partimos do pressuposto que ninguém aceita grandes exigências, especialmente em contexto religioso?
Apesar do início ser custoso, quando se ultrapassa a mítica “barreira da fome”, extraem-se dali amplos benefícios do ponto de vista espiritual, alimentando a alma. Portanto àqueles que me perguntam, cito “Como aguentas?” direi, sem hesitar: “A fé é capaz de feitos incríveis!”
De comum com o cristianismo, a ideia de que a renúncia é um caminho para a libertação.
Que o Ramadão de 2017 semeie no coração de cada um de nós a semente da Paz, do Amor e da União.

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