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Pedro Cabeça – Advogado
Pedro Cabeça
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“Regresso ao Futuro”

Loures 2116 - Estou sem memória

3 de dezembro de 2016
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Chovia, eu ouvia uma música bem velhinha, da primeira década do séc. XXI (uma coisa daquele velhinho grupo os Deolindinha, que se bem não me lembro nunca vieram a este concelho de Loures), enquanto buscava inspiração para a crónica de Dezembro de 2116, do centenário jornal “Notícias de Loures” (onde me dizem que o meu avô chegou a escrever). Estava a pensar numa crónica sobre o passado do concelho de Loures, um passado que estaria guardado na minha memória, mas de repente descubro que me tinham apagado a memória e que até queriam apagar mais.

Apelei aos senhores da comissão que apagam as memórias, a pedido dos senhores que decidem que memórias devem apagar, e responderam, com alguma leveza, que tinham apagado as memórias que pretendia porque o meu cérebro estava muito cheio e porque aquelas memórias não me faziam falta, garantiram até que o Presidente da comissão responsável pelo meu cérebro tinha estado presente e que assistiu à eliminação das memórias, conforme aliás constava dos autos que o mesmo assinara.

Fiquei preocupado. Não sei que memórias me apagaram, mas tinha a sensação que precisava delas, estava com ideia que eram memórias que gostaria de ter, perguntei então se podia ver o Exame onde se via que o meu cérebro estava cheio. Primeiro disseram que sim que me iriam mostrar, mas uns minutos depois disseram que não, que não havia condições objectivas para ver o espaço da minha memória.

Fiquei aborrecido. E apelei ao presidente da comissão, tinha a certeza que seria sensível ao assunto, pelo menos diziam-me, quando substituíram o anterior, que seria sensível a estas coisas. Passado uns dias respondeu o Presidente da comissão que apaga as memórias, acompanhado de um enorme livro sobre o assunto, que apesar de ter assinado que tinha estado presente, quando me eliminaram a memória, efectivamente não tinha estado, mas tinha a certeza que as memórias que agora desejava, e que ninguém tinha realmente visto, incluído o próprio, tinham sido eliminadas mas não deviam ser importantes. Dito isto foi muito aplaudido por uma série de pessoas que desconheciam qual era o apelo, mas que gostavam muito de acompanhar e aplaudir o Presidente da dita comissão. Fiquei muito preocupado com as memórias que me tinham apagado e com as que ainda me iriam apagar, fiquei preocupado que o tal Presidente da comissão tivesse dito e assinado que tinha estado presente e que depois se tivesse desdito publicamente, afirmando perentoriamente que não tinha estado presente.

Isto era grave e deixava-me a pensar que mais assinaria este Presidente da comissão na melhor das hipóteses sem ler e estudar o que lhe colocavam à frente, ou na pior, assinando mesmo sabendo o que ali estaria escrito.

Certo é que, com este apagar de memória, fiquei sem tema para a crónica deste mês.

Como seria feliz o meu avô quando em 2016 escrevia as crónicas para o Noticias de Loures, naquele tempo ninguém apagava memórias sem saber realmente da sua importância, ninguém assinava documentos sem ler, ninguém assinava deliberadamente papéis dizendo que tinha assistido à eliminação de algo sem efectivamente estar. Bons velhos tempos, como diria aquele velhinho escritor Gabriel Garcia Márquez “aquele que não tem memória arranja uma de papel”. Como eram felizes as pessoas em 2016.


Este colunista escreve em concordância com o antigo acordo ortográfico.

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