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Opinião
Patrícia Duarte e Silva – Psicóloga Clínica
Patrícia Duarte e Silva
Psicóloga Clínica

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Educar sem rotular

2 de julho de 2016
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A M. é a princesa, o J., o pre¬guiçoso, o T., o falador, a D., a Pestinha, o F., o repetente. Reconhece algum destes “rótu¬los” das reuniões de pais ou de conversas entre pais/educado¬res? Se pensar no círculo de ami¬gos do seu filho, quantas destas crianças têm um rótulo?

Mas afinal o que é e para que serve um rótulo? No seu sentido literal, um rótulo é toda e qual¬quer informação referente a um produto que vem transcrita na respectiva embalagem. Faz parte do rótulo um formato/tamanho definido para essa embalagem.

Ao transpormos esta realidade para pessoas, neste caso, ao rotularmos crianças, estamos a limitar as suas capacidades e possibilidades de ir mais além, a minar a sua auto-estima. Por exemplo, se categorizarmos uma criança de burra, estamos a dizer ou a vaticinar que ela terá insu¬cesso escolar garantido ou não terá capacidade de no futuro ser bem sucedida profissionalmente. Este é um “rótulo” que a própria criança poderá interiorizar, levan¬do-a a desinvestir ou mesmo a desistir de atingir determinadas metas, pois considera que não tem capacidades para tal.

As crianças não são iguais, cada uma tem o seu próprio ritmo de aprendizagem e estratégias diferentes de acompanhar e de se adaptar às situações do quoti¬diano. A infância é a fase de for¬mação de identidade da criança, onde ela se auto-descobre. Ao rotularmos é como se estivés¬semos a atribuir-lhe uma carac¬terística definidora permanente, geralmente redutora.

Esta situação ocorre por vezes em contexto escolar, o que inibe as crianças de usufruírem da liberdade para experimentar papéis e posturas tão típicas, não só deste ambiente, mas tam¬bém desta fase de descoberta. Também em casa esta questão é por vezes recorrente. Enquanto pai/educador evite rotular o seu filho e muito menos desqualificá-lo perante os outros pois, mesmo inconscientemente, está a limi¬tá-lo e a impedi-lo de expressar as suas ideias e revelar as suas capacidades. É por vezes difícil aceitar o facto de que os nossos filhos são diferentes dos outros e diferentes de nós, pais.

Por isso, aconselho-o(a) a:

• Identificar e destacar os pontos fortes do seu filho de forma a que ele experimente/vivencie o sucesso relacionado com esses pontos fortes;

• Orientar aquando das falhas ocasionais. Falhar dá a oportu¬nidade de crescer e, ao fazê-lo na segurança do lar/família, na presença de um dos pais, dará à criança o apoio que ela neces¬sita;

• Perceber a diferença entre ser e estar. O seu filho pode estar a ter mais dificuldade em man¬ter, por exemplo, as notas no terceiro período e até à data não ter demonstrado as mesmas dificuldades. O modo como ver¬baliza o seu descontentamento faz diferença. É distinto dizer: “Ultimamente tens tido mais difi¬culdades a acompanhar a maté¬ria!” ou “És mesmo burro, não acertas uma!”;

• Conversar com a criança de forma directa, clara e tranquila. Deve orientar o diálogo basean¬do-se nas acções e atitudes da criança e não em comparações com outros;

• Evitar diagnosticar antecipa¬damente as situações, atribuin¬do à criança uma problemática sem que a mesma possa existir. Frases como “O João não pára um minuto, só pode ser hiperacti¬vo!” soam-lhe a familiar?

Os diagnósticos não podem ser feitos apenas por observação de um comportamento isolado e, acima de tudo, sem perceber o contexto em que ocorrem. Muitas das nossas acções são fortemen¬te influenciadas pelo momento que estamos a viver.

Em vez de rotular as crianças, devemos aplaudir as suas ten¬tativas e elogiar quando neces¬sário. Devemos educá-las para a ideia de que tentar e falhar também fazem parte do processo de aprendizagem. Devemos edu-cá-las para uma sociedade onde o preconceito, o dogma, a infle¬xibilidade não limitem ou tornem redutora a sua visão do mundo.

E isto não é válido apenas para as crianças…

Este colunista escreve em concordância com o antigo acordo ortográfico

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