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Opinião
Florbela Estevão – Arqueóloga e Museóloga
Florbela Estevão
Arqueóloga e Museóloga

Paisagens e Patrimónios

Sobre a chamada “Casa do Adro”

7 de maio de 2019
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A Casa do Adro, também designada como Quinta da Igreja, está localizada a poente da cidade de Loures, apresentando-se fronteira à Igreja Matriz e ao antigo Cruzeiro manuelino, não sendo de estranhar o seu nome, uma vez que partilha com outras habitações a “vizinhança” do adro. Todavia, é um edifício de tipo residencial que se destaca do conjunto do casario ali existente pelo seu valor arquitetónico e pela sua história. De todos os elementos construtivos que o caraterizam, sem dúvida que o alpendre, situado numa das suas extremidades, é aquele que nos prende imediatamente o olhar.

Sabemos que a primitiva casa seiscentista foi ampliada, em 1824, por Francisco Manuel Trigoso de Aragão Morato, eminente jurista e político que alcançou o lugar de Ministro e Secretário de Estado dos Negócios do Reino, no tempo de D. João VI. Aquele, além de remodelações na residência principal, providenciou à plantação de várias árvores de fruto e à abertura de um poço para garantir o abastecimento de água à quinta. Posteriormente, dada a proximidade à igreja, a Casa do Adro serviu algum tempo como residência do pároco.

Em 1956 a casa foi adquirida ao então proprietário, de seu nome Mirandella, por um tal Eduardo Brasão, diplomata (no Vaticano, entre vários outros locais), o qual comprou a parte de origem seiscentista, ou seja, a mais antiga do conjunto habitacional. Para adaptar os espaços às suas necessidades promoveu um conjunto de obras sob a orientação do arquiteto António Lino. Alguns anos depois, em 1967, Eduardo Brasão compra também uma residência contígua, aos descendentes de Francisco Trigoso de Aragão Morato, ficando desde essa data os dois corpos arquitetónicos ligados numa única casa, configuração que se manteve até à atualidade.

Mais tarde, em 1979, a Câmara Municipal de Loures adquiriu o conjunto, com o intuito de instalar alguns dos seus serviços culturais, situação que se mantém. Nesta altura o projeto de adaptação esteve a cargo do arquiteto Ricardo Hartman. Parte do edifício albergou até 1998 o Museu Municipal de Loures, data em que este foi transferido para um antigo convento franciscano arrábido, o Convento do Espírito Santo, mais conhecido por Quinta do Conventinho, onde tem funcionado até agora.

Estamos, na Casa do Adro, perante uma antiga residência que apresenta agora três corpos distintos, de dois pisos, sendo o mais antigo, como referido, datado do século XVII. Este último desenvolve-se no sentido Nordeste-Sudeste, com o seu alçado mais importante virado para o largo da igreja. Na fachada principal podemos observar um friso pintado a branco que separa os dois pisos. No andar nobre, além de duas janelas de guilhotina, existem três janelas de sacada e com grades em ferro forjado. O acesso ao edifício é garantido através de um portal virado a norte, encimado pelas armas da família de Eduardo Brasão. Transpondo este portal, o visitante entra no pátio principal no qual encontra, além de uma nora, uma escadaria em pedra que permite, por sua vez, aceder ao tal alpendre, o qual ostenta uma elegante colunata manuelina. Possivelmente estes elementos foram adquiridos pela família aquando da reformulação da casa, pouco se sabendo sobre a sua proveniência. Mas, neste espaço que antecede a entrada para o piso nobre da residência, podemos ainda observar as conversadeiras forradas com painéis de azulejos lisos, azuis e brancos, apresentando nos cantos motivos florais, estes últimos datando provavelmente do século XVIII. Deste local privilegiado pode-se observar não só todo o conjunto exterior, com destaque obviamente para a Igreja Matriz, mas também espraiar o olhar sobre a várzea.

No século XIX foi edificado um novo corpo a sudeste deste primeiro edifício, de planta quadrangular, em redor de um pátio central. A fachada principal está igualmente virada à Matriz, apresentando cinco janelas de guilhotina, tanto no piso térreo como no piso superior. Também aqui o acesso é garantido por um portal que possibilita a entrada no pátio, no qual uma escadaria em pedra leva ao piso nobre.

No que diz respeito ao terceiro corpo referido, designado como “Casa do Caseiro”, ele desenvolve-se no topo nordeste, sendo de menor dimensão, e apresentando uma maior simplicidade. Com efeito, o seu alçado principal tem apenas janelas de guilhotina e três portas de cantaria simples, em pedra.

Por último, gostaria de salientar que a Casa do Adro fica no final da Rua Fria, topónimo que nos remete para uma época mais remota em que existiram no local outras casas de habitação, mais modestas, mas que as cheias sucessivas da ribeira que atravessa a várzea acabariam por tornar inabitáveis, arredando desse lugar parte da população, e afugentando-a para sítios mais seguros.

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