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Opinião
Florbela Estevão – Arqueóloga e Museóloga
Florbela Estevão
Arqueóloga e Museóloga

Paisagens e Patrimónios

O rio de Sacavém é um projeto grandioso do século XVII

9 de julho de 2018
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Em várias rubricas desta crónica salientei a importância estratégica do rio Trancão, a sua relação estreita com a Várzea de Loures, não esquecendo, evidentemente, o porto de Sacavém, nó de confluência de vários tipos de embarcações, desde as que serviam para transporte de pessoas e géneros variados, a barcos de pesca. Desta vez escolhi abordar um projeto do século XVII, o qual pretendia tornar a cidade de Lisboa inexpugnável a qualquer ataque por terra ou por mar, sendo o rio Trancão um dos protagonistas essenciais desse plano. Tratava-se de “moldar” a natureza aos intentos humanos, ou seja, reconfigurá-la através de uma obra de grande escala implantada no terreno.

Luís Mendes de Vasconcelos apresentou em 1608, na obra Do Sítio de Lisboa, um projeto que visava a construção de uma obra monumental – um gigantesco canal - com o objetivo de isolar defensivamente o território de Lisboa sob a forma de uma espécie de ilha, e para tal defendeu a possibilidade de abrir no terreno uma ligação do rio Trancão à ribeira de Alcântara. Esta estrutura constituiria um limite defensivo, genericamente situado a norte da cidade, e que, a par de outras fortificações existentes, garantiria a Lisboa, na perspetiva do autor, um carácter de tal modo sui generis que lhe daria a liderança em termos de condições de segurança ao nível das principais capitais europeias.

Esta ideia de Luís Mendes de Vasconcelos integrava-se num debate, que incluía muitos outros autores, os quais defendiam que Lisboa, pelas suas caraterísticas e qualidades, deveria ser a capital do reino (na altura Portugal e Espanha estavam temporariamente sob a mesma coroa), e não Madrid. De facto, na época Portugal estava sob o domínio da coroa espanhola; reinava Filipe II de Portugal (III de Espanha) e muitos advogavam que manter a capital e a corte em Madrid não fazia sentido, quando o comércio ultramarino era uma das principais fontes de riqueza, e naturalmente o porto de Lisboa um local estrategicamente superior tanto economicamente como ao nível político, para quem desejasse um maior controle sob os domínios de além-mar.

O seu propósito ao escrever este livro era pois o de convencer Felipe II de Portugal a mudar a capital do império de Madrid para Lisboa. Na obra já referida, Vasconcelos estruturou a sua argumentação em duas partes. Na primeira, defendia a posição de Lisboa como sede da corte enumerando todas as “excelências” da cidade, seguindo aliás as ideias já expressas por um outro autor, Francisco de Monzón. Na segunda, procurava ilustrar a mesma ideia através de diálogos fictícios alusivos à conquista portuguesa da Índia. Para tal, Vasconcelos punha em cena um encontro imaginário entre um homem invulgarmente sábio e três personalidades importantes; nessa conversa, ou série de diálogos, ia-se evidenciando Lisboa como cidade particularmente importante no contexto europeu. Por curiosidade, acrescente-se que as três personagens referidas correspondiam a um político, a um soldado e a um filósofo.

Assim, ao longo dos ditos diálogos, iam ficando evidentes as vantagens que haveria no facto da capital do império estar sediada em Lisboa. Não vou aqui desenvolver as várias razões que aí se explanam. Importa-me destacar um excerto do livro que de algum modo descreve e enaltece a região onde nos encontramos. Diz-nos Vasconcelos o seguinte: “Nós temos o rio de Sacavém que desembocando no Tejo faz uma profundíssima foz, na qual entram os maiores navios deste porto e ficando quase no norte da cidade, volta contra o noroeste, navegando-se até à Mealhada; e da sua ribeira se levantam uns montes ásperos, ainda que pela cultivação deleitosos, os quais se vão estendendo com uma larga volta contra o poente, levando sempre ao pé um fundo vale, aberto por muitas partes com regatos que por ele correm. Deste modo vão fazendo um muro a esta cidade até onde o rio de Alcântara, continuando a mesma volta por um áspero vale, chega a se meter no Tejo ao poente da cidade, deixando-a cercada com um grande espaço do seu território este rio, o de Sacavém, e o vale que está entre eles. Se abrirmos este vale, de onde a maré do rio de Sacavém chega, até ao de Alcântara, e afundarmos este de modo que possa a maré entrar nele, não vos parece que faríamos a mais segura fortificação que pode ser, recolhendo dentro dela, não só a cidade, mas muitos lugares e fertilíssimo terreno cheio de quintas, jardins, hortas e deleitosas recreações?”

Luís Mendes de Vasconcelos foi um militar, escritor e político que viveu na segunda metade do século XVI e primeira metade do século XVII, tendo sido Comendador da Ordem de Cristo, Capitão-mor nas armadas do Oriente e Governador de Angola entre 1617 e 1620. Naquele livro apresenta um conjunto de ideias e de reformas que, se implementadas, iriam a seu ver reforçar a posição vantajosa de Lisboa, e torná-la assim, como referi, o lugar ideal para cabeça do império. A fertilidade dos terrenos do seu termo, a salubridade dos seus ares e águas, o seu porto comercial internacional, a facilidade de abastecimento, a beleza das quintas e jardins para os nobres repousarem do bulício da corte, a sua inexpugnabilidade reforçada pela grande obra defensiva que a imaginação do autor concebeu – tudo isso não constituiu um conjunto de argumentos suficientes para Filipe II. Todavia, as suas ideias tiveram eco noutros autores como Severim de Faria no livro Discursos Vários Políticos (1624) ou Nicolau de Oliveira no Livro das Grandezas de Lisboa (1620), ambos muito conhecidos.

A ter-se concretizado a grande obra de engenharia proposta por Vasconcelos teria sido, sem dúvida, uma das mais audazes modificações da geografia da época feitas pela mão humana.

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