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Opinião
Florbela Estevão – Arqueóloga e Museóloga
Florbela Estevão
Arqueóloga e Museóloga

Paisagens e Patrimónios

cabeceiras de sepultura medievais de Loures

6 de março de 2019
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No Museu Municipal de Loures, instalado na Quinta do Conventinho, existe um conjunto de estelas funerárias medievais provenientes do adro da Igreja de Santa Maria de Loures, conjunto esse que merece a nossa atenção. Estes pequenos monumentos funerários, também conhecidos como cabeceiras de sepultura, pertenceram a sepulcros individuais que essas mesmas estelas pretendiam assinalar. Em geral, trata-se de um tipo de sepulcro que teve provavelmente uma larga diacronia; algumas delas poderão ser relativamente antigas, mas, ao que parece, terão sido mais frequentes nos séculos XIII e XIV, começando a escassear a partir do século XVI.

Recordo que ao longo do extenso período medieval os espaços sagrados, reservados a enterramentos, foram muito diversificados, incluindo até, como é sabido, as muito numerosas sepulturas abertas na rocha, as quais, na sua maioria, não ficariam assinaladas no terreno após o ritual de sepultação; este tipo de sepulturas (abertas na rocha) tem sido bastante estudado no Norte do país.

É bem sabido que também foram utilizados, como cemitérios, os próprios edifícios religiosos, incluindo a área que os circundava, o adro. Neste caso, a inumação dos fiéis era efetuada não só no interior dos templos, mas também no campo santo que os rodeava, ou seja, no referido adro, que incorporava o cemitério.

Mas, voltando ao nosso caso concreto das estelas, ou cabeceiras de sepultura, e segundo os investigadores do assunto, tais monumentos não só assinalavam a existência de uma sepultura, como também podiam procurar associá-la a um indivíduo e/ou a uma determinada profissão ou linhagem, através de signos inscritos na própria estela.

Refira-se que nem todas as estelas medievais inventariadas como provenientes do concelho de Loures se encontram depositadas no acima mencionado Museu Municipal, mas todas elas foram recolhidas na proximidade de igrejas ou de cemitérios. Não foi possível, até à data, estudar arqueologicamente, no seu contexto inicial, qualquer destas estelas, ou seja, em associação clara à sepultura a que terão pertencido. Todavia, tal circunstância é comum em todo o país, uma vez que os cemitérios sofreram alterações ao longo dos séculos, o que terá provocado, por vezes, o desmantelamento deste tipo de sepulturas. Por outro lado, não podemos esquecer que muitas igrejas sofreram obras de reconstrução e/ou de ampliação ao longo dos tempos, nomeadamente após o terramoto de 1755, o que terá implicado a reorganização dos espaços, e eventualmente a destruição de parte de cemitérios. Na verdade, podemos encontrar algumas cabeceiras de sepultura, ou fragmentos destas, incorporadas em paredes e muros, num claro reaproveitamento desses materiais para fins que nada têm a ver com a sua sacralidade original.

Este tipo de estela funerária pode apresentar três formas fundamentais: retangular, quadrangular e em palmatória, esta última mais frequentemente designada por discoidal. A estela discoidal, como o próprio nome indica, apresenta forma de disco suspenso por um espigão ou esteio, e é o tipo mais frequente do conjunto de estelas já conhecidas no concelho de Loures.

No conjunto existente no Museu Municipal predominam as cabeceiras de sepultura discoides, com exceção de um exemplar retangular. Todas elas apresentam uma iconografia simples, com representação da cruz, a qual pode assumir diversas variantes formais. Em dois exemplares observamos signos associados a profissões: uma das estelas apresenta um desenho inciso com vários instrumentos – serrote, machado e instrumentos para furar madeira; noutra podemos ver um compasso em baixo-relevo.

É de facto de lamentar não termos mais dados que nos permitam contextualizar estes documentos materiais no conjunto da vida medieval das populações do nosso concelho. Então como hoje, para os crentes, a salvação individual era uma questão fundamental, e o ato da inumação muito revelador da sociedade em que tal ato se integrava. De facto, como nos têm ensinado os historiadores, arqueólogos, e antropólogos dedicados ao estudo da morte e dos comportamentos rituais a ela ligados, é nesse momento – o do falecimento dos indivíduos - que de forma mais expressiva, intensa e nítida se revelam as crenças e ideologias sociais que organizam a própria vida.

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