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Opinião
Florbela Estevão – Arqueóloga e Museóloga
Florbela Estevão
Arqueóloga e Museóloga

Paisagens e Patrimónios

A propósito de aspetos do Paleolítico na região de Loures

7 de janeiro de 2017
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O período da Pré-história, que se convencionou chamar Paleolítico, é o mais antigo de toda a história humana, como o próprio nome indica: “Palaios” = antigo + “lithos” – que significa “pedra”. Portanto, Paleolítico seria a “Idade da Pedra Antiga”, ou da “Pedra Talhada”, ou seja, a fase em que a tecnologia humana, de tão elementar, se servia do talhe da pedra para obter os principais instrumentos neces- sários à caça e à vida em geral. Também é verdade que, devi- do ao carácter perecível de outros objetos, como os de madeira, osso ou corno, etc., foram os utensílios de pedra aqueles que mais chegaram até nós, induzindo os arqueó- logos a criarem esse conceito de “Idade da Pedra Antiga”, já nos primórdios da ciência arqueológica, isto é, no séc. XIX (concretamente, neste caso, em 1865).

Hoje, as nossas ideias sobre o passado mudaram e já não fala- mos tanto de “Idade da Pedra”, seja ela “Antiga” ou “Nova” (esta última seria o Neolítico), mas de fases da história e evo- lução humana caracterizadas sobretudo pelos modos de vida e de relação das comu- nidades com o seu meio-am- biente. Assim, por influência também dos estudos da cha- mada Antropologia Cultural, o Paleolítico é, para nós, sobre- tudo, a fase dos caçadores-re- coletores.

Que quer isso dizer? Que essa arcaica humanida- de, que começa há milhões de anos (e certamente, no nosso território, há muitas centenas de milhar) vivia do aproveita- mento inteligente daquilo que a natureza lhe proporcionava, adaptando-se profundamente aos recursos que o meio lhe oferecia, fossem eles em carne (ou peixe), em alimentos de origem vegetal, ou outros que contribuíssem para a subsis- tência de comunidades peque- nas a que chamamos, por con- venção, bandos. Bandos, na medida em que esses, então escassos (baixa densidade demográfica), caçadores-reco- letores apresentavam alguma mobilidade no território, e uma muito provável ausência de hierarquia social estável.

Quer dizer, existiam possivelmente líderes, mas estes mudavam conforme as ações a executar; não havia um grupo dominan- te permanente e, muito menos hereditário. Eram o que podía- mos chamar sociedades hori- zontais, sem divisão de riqueza nem, em geral, acumulação de bens. Os recursos, uma vez obtidos, seriam distribuídos de acordo com certas regras (que existem em todas as sociedades), mas não segundo uma diferença entre privilegiados e pessoas a eles submetidas.

Alguns autores consideram mesmo que, entre os caça- dores (e nisso baseiam-se nas comunidades que chegaram até nós, assentes nesse modo de vida) haveria essencialmente dois tipos: os que se deslocavam em grupo, na sua totalidade, conforme a necessidade de, em cada momento do ano, se aproximarem dos recursos que existiam neste ou naquele ponto do território; e outros, já mais sofisticados, que tinham uma logística que permitia uma certa sedentarização (fixação a um mesmo local) dos mais velhos, das mulheres e das crianças (isto é, dos mais vulneráveis), indo os mais jovens e vigorosos em expedições de caça que os podiam afastar do acampa- mento de base durante dias ou mesmo mais longamente.

Por isso, nem todos os caçado- res seriam permanentemente nómadas, andando de lugar para lugar, nem os homens e mulheres do Paleolítico, por analogia, seriam necessaria- mente, móveis. No território peninsular, indiví- duos que já podemos conside- rar humanos (nomeadamente porque fabricavam utensílios e tinham formas elementares de vida social) estão identifi- cados há mais de um milhão de anos, como se verifica na Serra de Atapuerca, perto de Burgos, Espanha (cidade onde o/a leitor/a poderá visitar o fabuloso e monumental Museu da Evolução Humana, o que muito aconselho).

No território que é hoje Portugal, e em particular na área do concelho de Loures, aparecem numerosos locais com materiais de pedra talhada datados do Paleolítico, embora não tenhamos sítios daquela importância excecio- nal. O que importa é perce- ber que, muito provavelmente também, seres que já dispu- nham de um comportamento e uma forma física que nos permite chamar-lhes humanos existiam, nas zonas que hoje habitamos e percorremos, há centenas de milhares de anos, e, provavelmente mesmo, há bastante mais tempo.

Eis uma matéria fascinante porque diz respeito às nossas mais antigas raízes. No caso de Loures, muitas são as localidades em que se recolheram utensílios de pedra dessa época paleolítica (que costumamos subdividir cro- nologicamente em Paleolítico inferior, médio e superior). Tais utensílios eram feitos princi- palmente em sílex (rocha vul- garmente conhecida como pederneira), porque este era fácil de talhar com um obje- to contundente servindo de “martelo”, em pedra, madeira, ou, mesmo, corno de cerví- deo. Por vezes era também utilizado o quartzito.

O objeti- vo inicial era, através do talhe, muito rudimentar, criar um gume cortante, que permitis- se, nomeadamente, extrair a pele aos animais e arrancar a preciosa carne. Mas, a certa altura, os homens e mulheres do Paleolítico começaram a desenvolver o gosto pela sime- tria, o que significa que faziam utensílios com um gume cor- tante mais extenso, implicando o talhe de, pelo menos, duas faces da pedra escolhida como matéria-prima. A esses objetos – que, de facto, e se formos a pensar bem, são a raiz da escultura – chamamos bifaces; em alguns, pela sua perfeição, podemos notar já um gosto estético numa época longín- qua (centenas de milhares de anos) em que aquilo a que nos nossos dias chamamos “arte” seria inexistente...

O leitor interessado poderá, se quiser, observar um desses objetos no Museu Municipal de Loures (Quinta do Conventinho), pois integra a exposição que ali se exibe. Na área a norte de Lisboa exis- te aquilo a que geologicamen- te se convencionou chamar o “manto basáltico”; de facto, essa rocha, escura, de origem vulcânica, alterna aqui, com frequência, com o calcário (em que predomina a cor branca, e no qual às vezes aparecem gru- tas que foram ocupadas pelo homem na Pré-história, e em particular no Paleolítico).

Na base das colinas basálticas, tão típicas desta região saloia, acu- mulam-se, por vezes, grandes quantidades de sílex, talhado ou não; quando são objetos com aspeto paleolítico, datam da sua fase inferior ou média. Um sítio profusamente estu- dado foi Chão de Minas, entre Manjoeira e Pintéus (os mate- riais recolhidos em 1965/66 encontram-se no Museu Nacional de Arqueologia). Um outro, célebre na história da nossa arqueologia, foi Casal do Monte, estudado por Joaquim Fontes nos primórdios da nossa arqueologia. Mas este é um assunto, caro/a leitor/a, a que hei de voltar...

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