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Opinião de Joana Leitão

Já não vivíamos isolados?

3 de maio de 2020
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O isolamento está a mudar-nos. Está a mudar o conceito que tínhamos de tempo, dos afetos, do trabalho, da saúde, da importância das coisas e até de nós próprios. A restrição da liberdade, que sabemos ser necessária, é dura, mas também é um caminho de esperança. O tempo, que parece ter outro molde, faz-nos andar mais devagar e permite-nos pensar e refletir, mais do que fizemos até hoje.

O tempo, que para uns parece mais curto e para outros mais longo, está a revelar-nos que deixámos de funcionar com os antigos padrões, e que será necessário construirmos estruturas mais sólidas. Sozinhos ou acompanhados, somos forçados a lidar connosco e com os outros o dia todo e, para quem não se confrontou muitas vezes consigo próprio, pode ser uma revelação bem desconfortável.

Sabemos agora que aquelas pessoas que sempre foram importantes não são só importantes, são essenciais para que possamos sobreviver, assim como certos profissionais, e que a vida fica realmente estranha sem abraços, sorrisos e olhos nos olhos.

O tempo também nos fez ver a importância de ter um trabalho que nos ocupe de forma saudável a cabeça. Deixarmos de correr, permite-nos sermos mais focados, mais eficientes e termos mais tempo para aquilo que realmente é importante.

Mas porque atribuímos unicamente ao vírus o isolamento se já vivíamos isolados? Se nos vemos cada vez menos e através de ecrãs. Se damos cada vez menos atenção aos que estão ao nosso lado. Porque é isto que o vírus vem pôr a descoberto, a necessidade que temos dos afetos, que o mundo virtual transformou e que temos oportunidade de reverter agora.

À semelhança de Chernobyl, embora com muito menos intensidade, o afastamento das pessoas trouxe animais às cidades em muitas zonas do mundo e, fez aventurar alguns que têm permanecido escondidos, o que revela mais uma vez o nosso lado antropocêntrico. Agora que percebemos o valor da natureza, podíamos dar-lhe tréguas.

Na verdade, podíamos também dar-nos tréguas uns aos outros, aproveitando o que aí vem para fazermos melhor. E diferente.

Joana Leitão

Jurista

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