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Pedro Cabeça – Advogado
Pedro Cabeça
Advogado

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“A Eternidade é o tempo exacto de uma respiração”

4 de junho de 2016
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Carlos Paniágua Féteiro encer¬rou o seu espectáculo de vida com uma enorme ovação, partiu “com o sorriso entre os astros”, humildemente orgulhoso com o que deixou por cá.

Para mim será difícil falar sobre a sua partida sem recorrer a luga¬res comuns, ou excessos (que como ele dizia – são para cortar), por isso neste texto vou aprovei¬tar palavras de Jaime Salazar Sampaio (que também já nos dei¬xou em 2010) para me auxiliar.

“Sentia que já era muito tarde, não bem nos relógios, mas em mim”. O Carlos Paniágua Féteiro deixou Marca, influência, dedi¬cação, consciência cívica, neste concelho de Loures. Antes do Teatro (que tinha interrompi¬do quando saiu das Caldas da Rainha) meteu mãos à obra na ajuda às vítimas das trágicas cheias de 1967 e, dessa cons¬ciência cívica e de cidadania, tornou-se cidadão de Loures. A tragédia e a guerra colonial foram causa do nascimento do teatro conduzido por Carlos Paniágua. Por um acaso trágico, num segundo de acaso, nasceu este fenómeno de Loures “na vida das pessoas/as grandes batalhas ganham-se ou perdem-se em alguns segundos e ficam ganhas ou perdidas para sempre.”

Eu fiquei com muitas lições, que iam muito além do palco, não só porque o que nos pedia enquan¬to actores era a nossa própria liberdade, limitando-a apenas à simplicidade sem excessos, sem exageros, sem irmos para além do texto, mas também porque trocávamos ideias, sobre tudo e nada, falávamos muito de Loures, das coisas positivas e negativas, nem sempre concordávamos (há 20 e tal anos tivemos mesmo uma zanga mais séria – já nem me lembro da razão), mas não logicamente, era suficientemente livre, para opinar, sem nunca ter assumido qualquer militância, não para ser politicamente cor¬recto, mas porque entendia que era livre de não se submeter a dogmatismos puros.

Do teatro ficou aquele prazer de ter estado tão próximo do Paniágua e dele colher a inteli¬gência e com ele partilhar o pra¬zer do teatro, e o orgulho vaidoso por ter assistido a “divinas” con¬versas entre Paniágua e Jaime Salazar Sampaio. Em 2005 fui desafiado pelo Paniágua para ler “O Homem da Gravata de Lã” de J.S.S., sem compromisso - disse. Um desafio enorme, o que me fez aceitar. No dia da estreia o Jaime Salazar Sampaio, a uns minutos de eu subir ao palco, quando estávamos apenas eu e o Paniágua numa conversa silen¬ciosa (esperava-me 1 hora e 5 minutos sozinho em palco), olha para mim e diz: “- espero que não me estrague a peça como o último que representou isto” . O Paniágua ficou em “choque”. Mas certo é que logo no dia seguinte à estreia o Jaime escreveu uma longa carta, afinal ao que parece não tinha estragado aquilo e o Paniágua deu-me cópia de duas cartas, a do Jaime e a sua de resposta. - Senti que esta carta também lhe pertence, afinal faz parte da carta - disse-me . Deixo aqui a parte final da enviada pelo Jaime “/…../ E Pronto. Mas antes a acabar queria dizer-lhe uma coisa (e é por causa dessa coisa que escrevi este arrazoado).

- Esse espectáculo, como autor do “Texto” interessa-me muitís¬simo.

Ponho-a ao lado de outras (e bem poucas!) experiências que foram para mim de desmedido interesse. Dou só dois exem¬plos “Conceição” do Rogério de Carvalho e “Adieu” do José Martins. É claro que você está no seu pleno direito de recusar toda a minha argumentação mas deixe-me que agradeça a si, ao actor e ao TIL – este espectáculo que vai a caminho de um grande espectáculo.

… E assim se encerra Talvez – e com chave de um metal já pare¬cido com o ouro - este longuíssi¬mo período da nossa convivência teatral.

Obrigadinho

Jaime”

Carlos Paniágua, cidadão de Mérito deste nosso concelho de Loures - “H. (muito calmo) – descontraia os ombros, endireite a coluna… continue a respirar. (pausa) A morte?... Deixe lá a Morte! Respire. (Longa Pausa) A Eternidade é o tempo exacto de uma respiração”

Este colunista escreve em concordância com o antigo acordo ortográfico

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