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Carta aberta de Joana Leitão

Ao Pedro Santos Pereira

10 de abril de 2018
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Podia ter necessidade de te prestar uma homenagem por seres o diretor deste jornal e um excelente jornalista.

A razão podia residir, também, no facto de seres muito especial como ser humano e, neste caso, teria que dizer que não aceito que o tempo apague a tua pureza, a tua genuinidade, a tua capacidade de veres o melhor dos outros, a forma justa e clara de veres as coisas, sem rodeios ou enfeites, a tua humanidade, a tua gratidão e a fé que te levou a acreditar que tudo podia ser sempre melhor. A tua vida foi das que valem a pena e não vou deixar ninguém esquecer-se disso.

A minha motivação pode até derivar do facto de seres o amor da minha vida, o meu namorado e melhor amigo mas isso implicaria ter que escrever, pelo menos, até às próximas três vidas.

Se for este o caso, tudo o que possa dizer soará pequeno comparado contigo e com a nossa história, embora saiba que te situas muito além das palavras.

Ao longo da nossa vida há muitas coisas que não dão certo para abrirem caminho a outras, às que são para ficar. E só percebemos isso quando, num piscar de olhos, tudo faz sentido e as peças do puzzle se encaixam, sem esforço. Connosco foi assim.

Confundimos, tantas vezes, amor com qualquer outra coisa e deixamo-nos estar, para não corrermos riscos. Afinal estar acompanhado é melhor do que estar sozinho.

Acontece que, quando temos a coragem de não aceitar, em momento algum ou em qualquer idade, menos do que o amor além-mundo, como fizemos, ele aparece. As dúvidas são banidas pela convicção de que tudo o resto foi, apenas, uma aprendizagem, um crescimento e uma preparação. Tudo o que acontece flui e é tão fácil que parece vindo do céu. Connosco, pelo menos, foi assim.

A compensação disso é que, à nossa frente, passa a estar alguém que respeitamos, admiramos, contemplamos, confiamos, de quem nos orgulhamos e que não queremos mudar. Passamos a gostar do que não gostávamos e não tentamos ser um mas, antes, dois que se encaixam.

O ego dá lugar à alma, que se espelha sem reservas, sem medo e sem fingimentos, vergonhas ou segredos, levando o pior dos bloqueios a abrir-se ao riso e à relativização. Conversa-se sobre tudo e não há segredos nem tabus, mas altruísmo e transparência, de coração aberto, o que permite que a cumplicidade se instale como se nos conhecêssemos desde sempre. Passamos a falar com os olhos, a antecipar as palavras do outro e a ter objetivos comuns. Aproveitamos todos os momentos para beijar e abraçar mais, deixando tudo para depois, porque as prioridades mudam.

Não cobramos nem exigimos e deixamos viver porque sabemos que chegámos ao nosso porto de abrigo. Não há braços de ferro porque nenhum pretende superar o outro, nem gritos ou discussões, só eventuais formas diferentes de ver as coisas, ambas legítimas. A reciprocidade é evidente e a sintonia é tanta, que nem parece real.

As pequenas ausências sentem-se como longos períodos em apneia e acreditamos que, para além dessas, nada nos separa. Nada a não ser a morte, que só acontece quando formos velhinhos não fosse a vida, num minuto, trocar-nos os planos.

Impreparados para interromper esta ligação bruscamente aos 40 anos, percebemos que muito ficou por dizer e que podíamos ter feito mais porque tivemos essa oportunidade. Se pudesse trazer-te de volta ter-te-ia dito o que sinto por ti ainda mais vezes, como fizeste sem medo de ser repetitivo. Teria entrado numa conservatória para casar contigo já, em vez de esperar por junho. Ter-me-ia abstido de fazer uma única crítica e teria agradecido cada segundo que passámos juntos, como fizeste sem teres que antever este desfecho. E acima de tudo, não me teria preocupado em ter certezas absolutas do teu lugar na minha vida, porque não tive tempo de te dizer que era o maior, como merecias.

Não fui eu que te ensinei a amar, foste tu que clarificaste o meu conceito quando demonstraste que, afinal, não tinha limite.

Tenho tanta sorte por ter visto o teu sorriso gigante e o brilho dos teus olhos todos os dias, por ter recebido flores, bilhetes e por me teres feito tantas surpresas. Passávamos os dias a rir, com um sentido de humor aguçado. Tinhas graça quando me perguntavas se podíamos ser bola de Berlim com creme, mesmo sabendo que já éramos.

Eras tudo o que uma mulher pode desejar e ainda mais e estavas certo quando afirmavas que o que fazíamos tornava a nossa relação perfeita.

Tu que dizias “até que a morte nos separe” acertaste. Talvez já tenhas cumprido o que vieste fazer ou, quem sabe, não pertencesses aqui e tivesses que te ir embora.

Não sei se sabes que me podes vir buscar durante o sono, contigo faço qualquer caminho. Se não puderes, volta a entrar nos meus sonhos e ensina-me a transformar a nossa relação numa coisa possível de viver desta forma.

Resta-me ouvir as nossas músicas, ler os teus bilhetes, vestir a tua camisola e esperar que estas palavras cheguem onde quer que estejas, sendo esta a motivação que permite que um pensamento turvo tenha alguma clareza e, que exista um intervalo entre as lágrimas, a dor agonizante, a falta de ar e o pré-rebentamento do peito.

Se soubesse que ia passar por isto, voltava a fazer tudo de novo.

O que retiro daqui, não permitirá que me esqueça, a cada hora, que o amanhã pode não existir e que as oportunidades, mesmo as que pareçam insignificantes, podem não voltar a acontecer. Até aquelas que servem para agradecer. Mais. Volto, por isso, a agradecer aos meus pais e amigos chegados por existirem, aos teus por te terem dado vida e a todos aqueles que têm ajudado. E a ti que tornaste tão fácil sermos felizes, agradeço cada momento. Para sempre.

E depois disto, achas que me podes acordar?

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