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Notícias | Cultura

Exposição - Museu da Cerâmica de Sacavém

Móveis Olaio a marca de uma geração

3 de setembro de 2016
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O Início

É preciso recuar a 1860, quando José Olaio, um jovem marceneiro com talento, transforma dois caixotes de madeira de espruce, comprados na Casa Havaneza, em duas mesas-de-cabeceira em folha de raiz de mogno. Para trás ficavam quatro anos de trabalho na Casa Aguiar, onde fez duas cómodas para o Rei D. Luís e outros quatro antes na Antiga Casa Venâncio, no Porto, onde começou como aprendiz de marceneiro. Filho de moleiros, menino pobre, José Olaio distribuiu farinha até aos seus 14 anos - altura em que vai a pé para o Porto, descalço, alimentando-se de esmolas. Largos anos mais tarde, em 1886, abre a sua loja de móveis própria, na Rua da Atalaia (Bairro Alto, Lisboa), ali trabalhando cerca de 18 horas por dia. A produção de mobiliário teria que esperar até 1918, para ver nascer a firma José Olaio & Cª. A "Companhia" era o filho, Tomaz Olaio, o futuro industrial da marca. Juntos abrem as oficinas de marcenaria no Bairro Alto e dois anos mais tarde contratam o primeiro desenhador da casa Olaio, Leal da Câmara. A cadeira de pinho que o ilustrador e jornalista criou é a primeira peça icónica de muitas que se viriam a seguir.

Em 1927, José Olaio transfere a sua quota para o seu filho mais novo, Antero e morre um ano depois. Ficam os dois irmãos à frente da casa Olaio - Tomaz com funções mais industriais e Antero na área comercial. A década de 30 marca o início da visibilidade da marca, que participa nos cortejos de Lisboa. Começa a aparecer nos cenários dos filmes portugueses e surge nas primeiras exposições de mobiliário. Mas o grande momento de viragem começa com as encomendas do Estado: primeiro da Emissora Nacional, que pede cadeiras e depois de pousadas, hospitais, escolas, universidades, ministérios, repartições públicas e instituições como a Fundação Calouste Gulbenkian e o Parlamento. Em 1937, o arquiteto Raúl Lino desenha o mobiliário para a Sala do Governo da Assembleia, ainda hoje a uso. 1937 é um ano-chave para a marca, que constrói a sua primeira fábrica, na Bobadela.

Mas é sobretudo nos anos 60 e 70 com o bom gosto de José Espinho, a capacidade de resposta da fábrica e as grandes obras do turismo, que a Olaio vai para fora cá dentro e começa a fazer os móveis e a decoração de hotéis como o Ritz, o Estoril-Sol e o Tivoli, os teatros Monumental, Éden e Politeama e os cafés Império e Mexicana, entre muitos outros. É também nessa altura que ganha os contratos de licença para produzir e comercializar marcas estrangeiras como a sueca Lundia e a alemã Interlübke. Décadas antes de a Ikea chegar a Portugal, o prestígio da Olaio já tinha chegado à Suécia e a marca encomendou, inclusivamente, uma cadeira à fábrica portuguesa nos anos 70. “A parceria não continuou porque a cadeira era demasiado boa e o preço de venda era quase igual ao custo de produção”, conta Conceição Serôdio, do Centro de Documentação do museu, não sem acrescentar que antes disso a Olaio já tinha uma cadeira que se vendia toda desmontada e numa caixa igual às que hoje levantamos nos corredores self service, um dos muitos exemplares das linhas Pratic, Expert e Prefa (abreviatura de pré-fabricado) criadas no princípio dos anos 60. Quase um século depois da fundação fundação da José Olaio & Cª (Filho), muitos móveis da Olaio continuam em bom estado, mas o mesmo não se pode dizer da empresa. Mais do que um factor decisivo, há várias razões que estarão por trás da falência e desmantelamento da fábrica, entretanto ocupada por várias empresas no recém-baptizado Parque Industrial Olaio. Para além da saída do trio Tomaz Olaio, José Espinho e Herbert Brehm (ainda hoje a viver em Portugal), o investimento brutal feito na modernização, a diminuição da encomenda pública nos anos 70 e o aparecimento da concorrência depois do 25 de Abril, aliados ao aumento da procura a baixo custo, fizeram com que a empresa tivesse dificuldades em competir com o mercado. A machadada final deu-se em 1987, quando Antero Olaio (irmão de Tomáz Olaio) vendeu toda a empresa a Mota Marques e em 1998 quando foi declarada a falência.

A Exposição

Até ao final do ano pode visitar a exposição que se encontra patente no Museu da Cerâmica em Sacavém, de terça a domingo das 10 às 13 e das 14 às 18 horas. Há peças assinadas por Leal da Câmara, o primeiro artista a colaborar com a fábrica, pelo arquiteto Raúl Lino, José Espinho e o pintor João Chichorro. Em desenhos, exibem-se cerca de 300 dos quase 600 do arquivo, a carvão, rigorosos e detalhistas, assinados por Fernando, antigo funcionário do gabinete e loja na Rua da Atalaia, em Lisboa e também por José Espinho, hoje nome nobre do design português, decorador na nomenclatura dos anos 1960.

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