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Notícias | Atualidade

Entrevista a Pedro Ferreira e Helena Vieira da Plano Humano Arquitectos

«Queríamos fazer um edifício que se demarcasse»

5 de março de 2018
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A Plano Humano Arquitectos é constituída por Helena Lucas Vieira e Pedro Miguel Ferreira, que têm como colaboradores a arquiteta Vanessa Ferrão e o arquiteto estagiário João Martins. Esta dupla já leva alguns anos na arquitetura, mas muitos mais na amizade. O Centro Pastoral de Moscavide e as suas recentes distinções são os temas chave desta conversa.

Qual é a vossa ligação com a Freguesia e o Concelho?

Pedro Ferreira (PF): A nossa ligação, em primeiro lugar, é com o Concelho. No meu caso, morei em Lisboa até aos 12 anos e depois fui morar para São Julião do Tojal. Tenho passado praticamente a minha vida toda em São Julião e por isso é que eu digo que sou de Loures. O nosso ateliê também começou em Loures, em São Julião do Tojal e viemos para Lisboa há quatro anos.

Helena Vieira (HV): A minha relação é com o Concelho primeiramente. Vim para o concelho de Loures com meses e vivi na freguesia de Fanhões. Fomos munícipes, estudantes.

A parceria vem desde essa altura?

HV: Sim. A amizade veio primeiro, depois fizemos o liceu, e os escuteiros, juntos.

Como é que surgiu o convite para fazerem o Centro Pastoral?

PF: Na altura fomos contactados por um escuteiro, a Paróquia tinha a vontade de fazer umas capelas mortuárias. Esse escuteiro era chefe do agrupamento, apresentou-nos ao Sr. Prior e, nessa altura, foi um convite para concurso. Não sabemos exatamente quantas pessoas concorreram, porque era um concurso por convite, relativamente informal, não havia um caderno de encargos ou um regulamento de concurso. Na altura em que apresentámos a nossa proposta, já havia uma outra equipa à espera para também poder apresentar a sua proposta. Gostaram imenso da nossa primeira proposta, gostaram da forma como apresentámos o projeto e, porventura, a relação que costumamos estabelecer com as pessoas. Posteriormente, a Paróquia disse-nos que tínhamos sido selecionados para fazer o projeto.

Quando entrevistei o Padre José Fernando, ele estava muito agradado com o vosso trabalho, com a vossa disponibilidade e também na altura referiu esse contacto por parte dos escuteiros. Qual foi o vosso grande objetivo para o projeto, estando ao lado de uma Igreja que pode ser classificada como património? Qual foi a vossa preocupação, uma vez que Moscavide é uma vila sui generis?

HV: Tem uma malha muito consolidada. Estávamos num espaço que, aquando do projeto inicial da Igreja, também tinha sido pensada a construção de um Centro Pastoral, mas na altura não foi possível fazer essa construção e o espaço que agora resultava também já não era o mesmo que inicialmente tinha sido pensado. Nós tínhamos um programa a cumprir com muito pouca área disponível, tínhamos que implementar salas de catequese, que eram pequenas e sem muitas condições, as capelas mortuárias na cave também tinham os acessos muito dificultados. Aquilo que queríamos fazer era um edifício que se demarcasse a nível de materialidade, a nível de aspeto e imposição espacial, mas que simultaneamente não se impusesse demais.

PF: Na altura, a Igreja surgiu no Movimento de Renovação da Arte Religiosa e portanto o objetivo, presumimos nós, era romper com os cânones que até aí prevaleciam. Nós não quisemos romper com nenhum cânone porque, atualmente em Portugal pratica-se muito boa arquitetura e não queríamos fazer alguma coisa altamente inovadora e que se descontextualizasse completamente. Queríamos fazer algo que marcasse o nosso tempo e, no fundo, marcando o nosso tempo. Também estávamos um bocadinho a cumprir a ideia que a Igreja tinha cumprido no seu tempo há 60 anos atrás.

HV: Não íamos fazer uma cópia da Igreja, fomos buscar algumas influências como os elementos verticais que estão na fachada principal. Os elementos utilizados têm uma certa ligação com a Igreja.
O espaço disponível era um bocadinho exíguo e a questão da imposição do programa e da necessidade das áreas, que era alguma, porque eram precisas muitas salas, há muitas crianças na catequese, também se queria implementar a universidade sénior e portanto quanto mais salas existissem para a comunidade, melhor.

PF: Muitos objetivos já estavam no programa inicial, mas ainda durante a fase de desenvolvimento, durante o estudo prévio e licenciamento, houve muitas versões do projeto, até chegar à fase de execução. Inicialmente havia necessidade de incluir apartamentos para pessoas que moravam naquelas casas, depois a Paróquia chegou a um entendimento para arranjar casas noutros sítios e conseguiu-se ter a disponibilidade desse terreno para cumprir com o programa que, efetivamente, fazia falta à Paróquia, nomeadamente o acesso à sala polivalente. No fundo o programa foi o resultado de muitas reuniões com uma equipa da Paróquia.

HV: Essa equipa teve algo que é sempre essencial para os projetos: a noção e a consciência do que é que os espaços precisavam, o que é que os espaços novos deviam cumprir.
Agravando ainda mais a questão da exiguidade do espaço disponível, nós gostamos muito da luz natural e artificial. A natural, absorver o mais possível, e para isso, neste espaço fizemos muitas versões para que a luz natural atravessasse o espaço.

PF: Na casa mortuária a luz é artificial. É uma característica simbólica que se quis dar às capelas. Um pormenor de inovação. Chamam-se Capelas da Ressurreição, o Padre José Fernando sempre disse que queria umas capelas com luz e um espaço leve e minimamente agradável. Também há outros pormenores que utilizámos nas capelas em termos de mobiliário. Há algumas medidas que estão presentes na construção do mobiliário que têm iconografia, simbolismo.

Ambos são católicos. Estavam mais preparados para essa iconografia e simbolismo. Sentem que tinham um maior conhecimento e utilizaram-no?

PF: A nossa educação religiosa é a normal e a vivência escutista ajuda-nos a trabalhar estes programas quando se ligam muito com a religião. É mais simples a pesquisa.

HV: Estamos mais próximos das referências litúrgicas e dos pormenores.

PF: Temos aprendido muito à medida que vamos trabalhando e com novos os novos projetos que vão surgindo, mas também sentimos que o trabalho que está presente no Centro Pastoral é o nosso trabalho, mas também o trabalho da nossa equipa e é sobretudo o trabalho das pessoas da comissão que reuniram sempre connosco: conselho económico, conselho fiscal, conselho pastoral. Essas pessoas deram-nos sempre inputs, o Padre José Fernando, as próprias entidades, a Câmara Municipal de Loures, a DGPC. Mas o resultado é o entendimento entre todas as condicionantes.

À medida que a obra foi crescendo, como foi a relação com a comunidade envolvente?

HV: O feedback foi muito positivo. Nós fizemos uma apresentação do projeto à comunidade e muita gente deslocou-se às instalações da Paróquia para ver essa apresentação. O Centro Paroquial estava cheio. Fiquei admirada porque as pessoas estavam com muita curiosidade, fizeram imensas perguntas, umas mais técnicas, outras menos técnicas, mas penso que o que sobretudo levou aquelas pessoas até lá, foi a curiosidade sobre como é que tudo ia acontecer. Durante a obra também manifestaram curiosidade. Na inauguração confirmamos essa recetividade por parte das pessoas.

Com esta obra acabaram por vencer o American Architecture Prize. Qual foi a sensação de vencer um prémio tão prestigiado?

PF: Concorremos porque achamos que podia ter viabilidade, mas na verdade não estávamos à espera de ser premiados. Ficámos muito contentes. Também, agora recentemente, foi considerado Building of the Year no Archilovers e esteve nomeado, pelo Archdaily, para o prémio de Arquitetura Religiosa .

HV: Ficámos mesmo muito contentes. Foi um processo longo, muito desafiante, uma aprendizagem espetacular. Os primeiros traços começaram em 2011, é inaugurado em 2016, com muita coisa pelo meio mas com um saldo muitíssimo positivo. Este reconhecimento internacional do nosso empenho foi fantástico.

Sentem que poderão abrir-se mais portas?

PF: Eu acho que pode acontecer. Os prémios podem obviamente ajudar o ateliê. O nosso trabalho é valorizado.

HV: Dá mais visibilidade, a possibilidade de surgirem mais contactos, embora não tenham existido ainda efeitos práticos e imediatos.

É a vossa obra-prima, até agora?

PF: Eu não acho que nós tenhamos uma obra-prima. Esta obra foi um projeto que aconteceu durante muitos anos, terá sido dos mais extensos até agora e porque envolveu a comunidade. Em termos de dimensão também é a nossa maior obra construída. Na altura reconhecemos a responsabilidade que tínhamos, estamos muito agradecidos a esta comunidade que acreditou e também ao Padre José Fernando que acreditou no nosso trabalho, no nosso valor e que nos confiou este desafio. Foi uma oportunidade para o ateliê. Este trabalho permitiu-nos crescer e aprendemos muito com ele. Tem um sabor bom vermos um bom resultado e reconhecendo todos os problemas que surgiram. Foi um processo difícil, trabalhoso. Mas felizmente, penso que as pessoas reconhecem aquilo que têm, o Padre José Fernando está contente com o trabalho. Mas temos outros trabalhos de que também gostamos muito e não só religiosos.

Gostavam de fazer outra obra de referência dentro do Concelho?

HV: Inevitavelmente no Concelho é-nos mais próximo. Temos história, temos vivência, temos conhecimento. É sempre um gosto poder trabalhar também na nossa terra e deixarmos o nosso contributo para melhoria das condições.

Na arquitetura por vezes vêem-se duplas de trabalho. É fácil conjugar diferentes pontos de vista?

HV: É um desafio perfeitamente possível. É uma disciplina muito extensa que exige algum debate, que a solo é sempre mais difícil. São precisos inputs diferentes.

PF: Tem que haver discussão e coordenação. Nós temos muitas convergências, mas às vezes não pensamos da mesma forma, muitas vezes surgem dúvidas, questões, mais ideias. O que é realizado na prática tem de ser aquilo que nós visualizamos, que aceitamos, aquilo que entendemos que deve ser o projeto. É mais rico trabalhar em equipa.

De onde vem o nome Plano Humano?

HV: Em primeira instância é motivado pelas iniciais de Pedro e Helena. Inicialmente queríamos que se chamasse PH Arquitectura, mas já havia outra empresa com esse registo.
PF: Perante isso, escolhemos Plano porque se reflete no que fazemos e Humano porque gostamos de estar próximos das pessoas e para elas que desempenhamos os nossos trabalhos.


Pedro Santos Pereira

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