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Notícias | Ambiente

Associação Chão dos Bichos

Em risco de ficar sem casa

5 de fevereiro de 2018
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Ana Sousa tinha pouco mais de 20 anos quando começou a recolher animais da rua e a levá-los para casa. Tornou-se voluntária numa associação de proteção animal que não tinha abrigo e abriu as portas da sua moradia a novos elementos da família, quer fossem cães ou gatos. Um dia, um vizinho incomodado com o ruído, instaurou uma providência cautelar. Bastaram quatro dias para que tivesse arrendado e vedado 1300 m2 para onde transferiu 58 cães, livrando-os do abate. Hoje, aos 45 anos, com a paixão que desde cedo lhe está no sangue e que herdou da mãe, é presidente da associação que fundou e a ela se dedica a tempo inteiro.

 

500 cães num espaço com capacidade para 60

São cinco horas da tarde, quando chegamos à porta da Chão dos Bichos. À chegada e, ainda do lado de fora, esperam-nos 11 cães que nos recebem com grande entusiasmo. Ana distribui festas pelos que se cruzam consigo, revelando-se uma familiaridade recíproca.
Ao som de latidos sobrepostos veem-se canis construídos e improvisados e casotas de plástico e de madeira onde se alojam 500 cães, apesar do espaço ter capacidade para 60.
Pequenos, grandes, rafeiros, de raça, jovens ou mais velhotes, dominantes ou submissos, chegam de todos os lados. Deixados à porta, amarrados às árvores exteriores, atirados para dentro do abrigo e encontrados abandonados ou atropelados. A maioria traumatizados, com medos paralisantes e problemas comportamentais, fruto de sofrimento.
Pouco ou nada preparados para partilhar comida ou território surgem confrontos, momentos geradores de desestabilização e ansiedade. Apesar de ser possível fazer amizades, alguns vivem em boxes ou acorrentados para o resto da vida, porque não se integram, não sendo raro que muitos se recusem a comer e a reagir nas primeiras semanas.
Todos têm nome, água, comida e mantas, mas não se pense que esta vida é um mar de rosas, principalmente para os mais frágeis.
O dia-a-dia deste abrigo não é duro só para os animais, que têm que ser alimentados, escovados e medicados quando é necessário. Apesar de não haver água nem luz, o espaço, assim como os comedouros e os bebedouros, aparecem limpos, lavados à mão, tal como as mantas. A água vem em garrafões, trazidos a pé até ao cimo da encosta.
Dos 60 ajudantes só 20 vão ao terreno meio-dia por semana, geralmente ao fim de semana, restando duas ou três pessoas para os outros dias. O trabalho é tanto que, para ser feito em condições, seriam precisos sete voluntários por dia. É por este motivo que, novos elementos responsáveis, cumpridores e preparados para lidar com a rotina, que vai muito além de manifestações de afeto, são bem-vindos.
Alimentar tantos animais é dispendioso. Cinco dias são suficientes para fazer desaparecer uma palete de ração com 36 sacas de 20 quilos e, com ela, 470 euros, que é quanto custa.
Sempre que há mediatismo ou alguma catástrofe, como foi o caso do incêndio de 10 de agosto de 2015, não falta ajuda, mas o passar dos dias traz o esquecimento.
Uma semana após as chamas terem carbonizado nove dos 160 cães existentes à data, foram deixados 32 à porta. As adoções aumentam, assim como o abandono. Por cada quatro cães que são adotados, registam-se entradas de dez novos animais, o que faz com que o seu número não pare de crescer.
Cuidar dos animais é uma tarefa que ocupa o ano inteiro pelo que, comida, água, mantas, casotas e medicamentos veterinários continuam a ser necessários neste momento. Novos associados e donativos ajudam a comprar comida em quantidade e, por isso, a preços mais económicos, bem como os apadrinhamentos, que envolvem visitas e 15 euros por mês.
O local pode ser visitado todos os sábados entre as 14 e as 17 horas, exceto quando chove pois, o chão de terra transforma-se em lama, aconselhando-se calçado e roupa adequados. E, depois da visita, se tiver a sorte de ser escolhido por um destes bichos, a sua entrega é feita em casa, vacinado e esterilizado, com um custo de apenas 60 euros e, alguma orientação sobre a forma de o acolher e de cuidar.

 

À espera de casa nova

O local é arrendado e o contrato termina no próximo mês de maio de 2018, estando em curso um processo de cedência de um terreno em Camarate, por 70 anos, cujo direito de superfície será conferido pela Câmara Municipal de Loures. No entanto, a escritura ainda não foi assinada nem a edificação concluída, desconhecendo-se o destino destes animais, caso não existam condições para os receber no espaço de quatro meses.
É ao Centro de Recolha Oficial ou Canil de Loures que compete assegurar a higiene, saúde e bem-estar dos animais errantes deste Concelho, nomeadamente a sua recolha e esterilização. Contudo, uma vez que ainda não existem condições para o fazer, está a ser ultimado um protocolo com a associação, para esterilização de canídeos e felídeos à guarda deste Centro, bem como para cumprimento do programa CED, que consiste na captura, esterilização e devolução ao local de origem, de gatos pertencentes a colónias controladas.
Para Ana, o novo abrigo é a luz que ainda vê ao fundo do túnel, procurando não elevar as expectativas para 2018, de forma a afastar desilusões, pois neste percurso tem somado muitas.
Se alguém se perguntou pelos gatos, saiba que nenhum mora ali e que a sua história será contada brevemente.

Joana Leitão

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