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Entrevistas

Entrevista a Fernando Fernandes, a maior referência nacional do kickboxing

«Ninguém vence sozinho. É impossível»

30 de novembro de 2017
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Fernando Fernandes, ex-munícipe de Loures, é uma, senão a maior, referência nacional no kickboxing. O pretexto para esta conversa foi o livro, “Ser Campeão no ringue como na vida”.

Não teve uma infância fácil. Até que ponto é que isso foi determinante no seu futuro?

A minha infância foi diferente. A minha mãe trabalhava quando era miúdo e ia para casa de uma ama. Não havia infantários como há hoje. Entre os 6 e os 13 anos, nas férias de verão, para não ficar sozinho na rua, ia para a terra dos meus pais. Lidei com a natureza, os animais. Os meus avós tinham pequenas hortas e o meu avô era lenhador, cortava pinheiros. Foi uma infância com os meus avós em que os meus pais iam visitar-me muito de vez em quando e, aí, criei uma distância motivada pela ausência. Senti imensa falta deles. Entre os 14 e os 19 anos trabalhei com o meu pai no mercado 24 de Julho, mercado abastecedor de restaurantes e mercearias. O meu pai deu-me sentido de responsabilidade, aprendi a parte comercial e a lidar com as pessoas. Foi uma infância diferente.

Terminou agora o 12º ano, porquê?

Não queria ir para a universidade, mas tinha como objetivo fazer o 12º ano e consegui fazê-lo só aos 50 anos. Tinha três coisas para fazer: trabalhar para o meu pai, treinar e estudar. Apenas durante um ano consegui gerir as três coisas.
Apesar de se ter destacado no kickboxing, a sua primeira modalidade foi o atletismo e depois o karaté.

O atletismo foi aos onze anos no centro de atletismo de Campolide, onde pratiquei durante dois anos. Depois veio o karaté, mas não era aquilo que eu gostava.

O momento em que decide que o karaté não é algo que o preenche e decide avançar para outra arte marcial, é no momento em que vê o filme “A Force of One” com Chuck Norris.

Esse filme marcou-me muito. Aquela espetacularidade de defesa pessoal, o filme em si, o ringue. Eu olhei e pensei. Este vai ser o meu desporto.

Na altura a informação era pouca. As pessoas trabalhavam de forma empírica. Eu tive a sorte de ter o mestre Carlos Pais, uma pessoa, para a época, muito avançada porque ele mandava vir vídeos dos Estados Unidos, preocupava-se com a metodologia de treino, com a parte técnica. Tudo o que há hoje eu já o fazia há muitos anos. Os princípios estavam lá, porque na altura havia quatro, cinco escolas em Lisboa. Treinavam sem metodologias de treino, não havia o saber que há hoje. Os atletas agora viajam muito, há muitas oportunidades de saída, há muita experiência, muito mais informação

Já falou em Carlos Pais mas há outra referência, Francisco Ferraz.

Aos 18 anos ia correr para Monsanto, fazer os meus exercícios. Um dia disse-me que, com trabalho e dedicação, ia ter sucesso. Ouvi aquelas palavras e fiquei um pouco surpreendido. Um jovem como eu tinha imensas dúvidas, tinha dificuldades a nível espiritual, do conhecimento. Hoje, a forma como eu penso ainda se mantém. Tenho o espírito positivo, de querer ultrapassar os obstáculos.

Baseado no Yoga?

Baseado no yoga e na filosofia oriental. São ideias milenares que se mantêm ao longo dos anos, são eternas, vêm do passado, estão no presente e surgirão no futuro e isso foi muito importante para mim.

Independentemente da qualidade técnica, física e psíquica, na verdade sempre foi um atleta que levou a sério o treino e se autodisciplinou. Nunca desistiu dos objetivos e forçou-se sempre a chegar lá.

Quando entro num projeto sou muito determinado, algo que é inato em mim. “Eu vou ser campeão disto”, disse a um colega meu, e acabei mesmo por ser. Fui o primeiro campeão da Europa em Portugal, em 1990, tendo o auge da minha carreira entre 1990 e 1994. São quatro anos com muita determinação e afinco para atingir o objetivo de ser campeão do mundo.

É óbvio que o facto de ter sido campeão da Europa e do Mundo ajuda a publicitar, mas hoje, onde existe mais informação, não há um nome de referência como existiu o de Fernando Fernandes, a que se deve isso?

O facto de estar no Sporting ainda me ajuda. Há uma simbiose importante, porque mantém o espírito de campeão. Sou campeão porque me dediquei, mas houve outros atletas que também o foram, possivelmente até melhores que eu, mas uma coisa que é muito importante é a ética e o respeito, algo que mantive sempre.

Um campeão não é um produto individual, mas a soma de muitas pessoas. Sente isso?

Eu posso cair mas sinto-me em pé. Ao longo da vida sempre tive a consciência que tinha de escolher as pessoas certas e tive a sorte de as atrair para me acompanharem, porque ninguém vence sozinho, é impossível.

Um campeão é o que vence os obstáculos e em cima do ringue é mais fácil. O caminho para chegar lá e manter é que é difícil.

As artes marciais são conotadas com violência. No entanto, a filosofia oriental, de onde provêm estas artes, tenta unir corpo e alma, o respeito pelo adversário e uma descoberta individual. Não é um paradoxo?

Desde miúdo que eu pratico e transmito os meus conhecimentos a quem realmente está interessado. As artes marciais são benéficas, com princípios, o que não quer dizer que não existam pessoas que as utilizem para outros fins, desacreditando-as.

Começou a fazer desporto para ganhar confiança e autoestima. Mais tarde veio a descobrir que a autoestima é mental e não física.

Para se vencer, primeiro pensa-se. O que acontece é que a confiança parte de acreditarmos em nós mesmos, para desenvolvermos o nosso interior. As artes marciais ajudam a ganhar autoestima para ultrapassarmos determinados obstáculos. Tudo uma atitude mental. Pensamos antes de acontecer.

Quando alguém luta muito para chegar a um objetivo e, em 1994, e é campeão do Mundo, o que sente?

Ainda hoje tenho as imagens mentais desses momentos. Foi uma alegria estrondosa. Foi na nave de Alvalade, um sítio marcante. Um sentimento que não dá para explicar.

Viveu no concelho de Loures, durante pouco mais de 10 anos, ainda mantém ligação?

Sim, costumo visitar os meus cunhados que estão a viver nas torres da Bela Vista, onde cheguei a morar.

Que recordações tem do Concelho?

Muitas e boas. Dei aulas no Clube de Santo António dos Cavaleiros durante três anos. Com o apoio da Câmara de Loures e da Junta de Freguesia de Santo António dos Cavaleiros, organizámos uma tarde inteira de combates de demonstração, num ringue ao ar livre. Uma experiência que me pediram para repetir. Infelizmente não houve oportunidade, porque entretanto recebi o convite do Sporting.

Além disso, fiz três combates no Pavilhão Paz e Amizade e assisti a um outro, entre o Paulo Amorim e um atleta holandês, com o pavilhão a abarrotar, o que foi marcante para querer avançar na modalidade.

Entretanto deu formação em algumas escolas. Continua aberto a fazer essas demonstrações?

Sim, claro que continuo.

Tem alguma mensagem para as pessoas que queiram enveredar por esta modalidade?

A modalidade vai ao encontro das necessidades de cada um e pode ser praticada por qualquer pessoa. Há uma grande quantidade de mulheres e crianças a treinar, por ser um desporto muito completo a nível físico e psicológico. Tem o contacto que deve ter a nível competitivo, há uma série de componentes que fazem com que o contacto seja menor, quando o objetivo não é a competição.

 

Pedro Santos Pereira

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